Criada em um contexto de perdas financeiras significativas na adolescência, a criadora de conteúdo Mariana Brasil, do Rio de Janeiro (RJ), cresceu ouvindo (e observando) que aparência era mais importante que essência entre as mulheres da sua família.

Ao ingressar na advocacia, a carioca passou a comprar roupas e acessórios para se adequar ao ambiente corporativo. Essa necessidade, aliada ao histórico familiar e à falta de educação financeira, foi o estopim para um padrão de consumo que se transformou em doença.

O começo da compulsão por compras

Quando começou a receber os primeiros salários mais robustos de advogada, aos 24 anos, Brasil recebeu uma ligação do gerente do banco oferecendo a linha de crédito. “Ele disse que todo mundo pega um empréstimo um dia, para realizar um sonho ou atender um desejo. Eu falei ‘opa, desejo?’. Era o que eu mais tinha”, lembra ela, hoje aos 45 anos.

A advogada se endividou rapidamente. Usava talões de cheque como se o saldo fosse infinito e acumulou dívidas em cartão, cheque especial e financiamentos. Seu foco era um só: roupas, acessórios, bijuterias e maquiagens. Tudo ligado à imagem.

Uma coisa que me atrapalhou muito foi que, por muitos anos, eu trabalhei numa equipe só de mulheres, todas muito vaidosas e que ganhavam bem. Ninguém tinha o mesmo nível de problema que eu, mas todo mundo gostava muito de comprar. E eu virei referência de alguém que conhece marcas e produtos.”
— Mariana Brasil, criadora de conteúdo

A compulsão por compras, também chamada de oniomania, foi diagnosticada por um terapeuta pouco depois. Logo nos primeiros atendimentos, ela descobriu que tinha ansiedade, depressão e compulsão.

De acordo com a psicóloga sistêmica Andréa Guedes Mano, o transtorno se caracteriza pela perda da capacidade de discernimento e pela tentativa desregulada de aliviar um desconforto interno. “É comum a pessoa ter três ou quatro produtos idênticos. No ato da compra, há um alívio, mas ele dura pouco. Logo vêm culpa e vergonha, e o ciclo se reinicia”, afirma.

Com acompanhamento psicológico e psiquiátrico, Brasil oscilou entre altos e baixos. Uma fase de melhora também coincidiu com um relacionamento anterior. “Passei cinco anos com a compulsão sob controle, quando conheci meu ex-marido. Foi a primeira pessoa que me ouviu e me ajudou”, conta.

No entanto, com o fim do casamento, que calhou com o início da pandemia, Brasil voltou a consumir de forma descontrolada. A queda na renda, associada ao aumento do custo de vida pós-divórcio e ao acúmulo das dívidas, a levou a uma abstinência forçada. “Chegou um ponto em que eu não conseguia comprar. Não porque eu não quisesse, mas porque não tinha mais crédito”, relembra.

Segundo Mano, quando a compulsão é interrompida à força, é comum que o impulso se desloque os impulsos para outros comportamentos repetitivos. A energia psíquica da compulsão pode migrar, por exemplo, para distúrbios alimentares, jogos, sexo ou até transtornos obsessivos compulsivos, como lavar as mãos ou checar as portas excessivamente. “Qualquer movimento repetitivo serve como descarga de tensão. A pessoa está tentando anestesiar uma dor emocional”, explica a psicóloga. Não foi o que aconteceu com a advogada.

Sem dinheiro até para comprar comida, Brasil dependia de empréstimos de 100 ou 200 reais feitos pelo pai ou pelo ex-marido para se alimentar. No fundo do poço, pensou em acabar com a própria vida, e chegou a ligar para o CVV.

Ela nunca teve coragem de contar quantas peças acumulou, mas admite que seus armários, sapateiras e estantes de maquiagem ainda estão lotados, até de produtos vencidos. Ela tampouco se sente confortável de compartilhar quanto dinheiro torrou, mas diz que é na casa das “centenas de milhares de reais”.

O recomeço

Nos últimos três anos, a carioca diz estar “regenerada”. Com ajuda de terapia, yoga, meditação e uso controlado de medicação, aprendeu a conviver com os impulsos e se proteger dos gatilhos. Não vai mais a shopping e parou de seguir influenciadoras que estimulam compras.

A maior virada veio com a aceitação de que havia um vazio, e que ele não seria preenchido por objetos. “Todo excesso esconde uma falta. A minha era ligada à necessidade de aprovação e ao que eu não recebi na infância. Eu tinha que me autodestruir, porque achava que não merecia ter estabilidade financeira”, conta.

Esse vazio interno que busca ser preenchido com o ato repetitivo é o verdadeiro motor da compulsão, de acordo com Mano. “A gente precisa entender o que essa dor quer dizer pra gente, e não tentar anestesiá-la para mudar o foco”, diz a psicóloga. A psicoterapia ajuda a pessoa a compreender a dor que está por trás, e a responder de forma diferente aos estímulos. Quando há comorbidades como ansiedade ou depressão, o acompanhamento psiquiátrico também pode ser necessário.

Divulgação na internet

Durante a maior parte da vida, Brasil ocultou o transtorno das pessoas à sua volta — ela escondia até do marido os pacotes que chegavam em casa —, e se sentia uma farsa por isso. No ano passado, recebeu o aval da psicóloga para sair do armário, e decidiu se tornar criadora de conteúdo sobre compulsão por compras (@compulsiva_vigilante no Instagram).

Hoje, ela se dedica a orientar outras mulheres, com informações que não encontrou quando precisou. “O recado que quero dar é que, ainda que leve 20 anos para sair desse ciclo, vale a pena. Vai ser difícil, vai ser doloroso, você vai se autoboicotar, vai ter recaídas, mas não desista”, diz.

A compulsão por compras ainda é pouco reconhecida como transtorno. Isso se deve, em parte, ao ambiente em que vivemos, que estimula o consumo como sinal de sucesso. “O marketing é estruturado para provocar gatilhos emocionais e decisões impulsivas. É uma armadilha potencializada por ferramentas como cashback, descontos e crédito fácil”, diz Mano.

Revista Marie Claire

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