Com o Nordeste e o Brasil já tendo conversas, protocolos e projetos em estágio avançado para a transição energética e o Hidrogênio Verde, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) quer continuar o protagonismo na capacitação e formação de profissionais para as áreas de energias renováveis e dar passos a frente para atender uma demanda que será cada vez maior nos próximos anos. Essa é a expectativa do diretor geral nacional do Senai, Gustavo Leal, que esteve no Rio Grande do Norte nesta semana.
O diretor participou em Natal da inauguração do 1º Centro de Excelência em Formação Profissional para Hidrogênio Verde do Brasil. O espaço de capacitação, criado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a agência de cooperação alemã GIZ, deverá ter cursos e atividades ainda no primeiro semestre de 2024.
“O que vamos assistir nos próximos anos é uma demanda crescente por energia limpa. Energia eólica e solar não dá para exportar, mas hidrogênio verde sim. Então a conversão dessa energia limpa em hidrogênio verde e abastecer o mercado mundial é uma perspectiva bastante provável nos próximos anos. Não é a toa que observamos uma cooperação como essa entre Alemanha e Brasil para um centro de formação em hidrogênio verde no RN que se estende para outros cinco estados”, destacou Gustavo Leal.
Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Gustavo Leal faz uma análise acerca das discussões sobre Hidrogênio Verde e energias renováveis e reforça o protagonismo que o Rio Grande do Norte e o Nordeste poderão ter na transição energética. Confira.
Como tem avaliado o crescimento das energias renováveis no Nordeste, especialmente no RN, e quais as perspectivas para esse segmento com a chegada do offshore?
Essa é grande vantagem comparativa que o Brasil tem atualmente. Uma matriz energética limpa e cada vez mais limpa. O potencial de geração de energias renováveis no Nordeste é um manancial que está sendo descoberto, mas que tem muito para crescer ainda, até se pensarmos em toda a parte offshore que não se incorporou a isso, o potencial é extremamente elevado.
Quais as vantagens do Hidrogênio Verde?
O H2V é uma promessa de futuro principalmente para que possamos exportar energia. Não dá para transportar energia elétrica, solar ou eólica, mas o H2V sim, após conversão. Hoje o mundo já começa a ver esse tipo. O Japão, em formato experimental, importa hidrogênio verde da Austrália, em navios próprios, mas ainda num estágio embrionário. A tendência é que isso se intensifique a partir do momento em que os custos caem e se tem substituição de produtos por produtos com hidrogênio. Vi no Japão uma experiência interessante que é a substituição do metano pelo e-metano, que é um que vem a partir do H2V. Teremos muito isso.
E com relação as potencialidades do Hidrogênio Verde com a chegada da eólica offshore?
O que vamos assistir nos próximos anos é uma demanda crescente por energia limpa. Energia eólica e solar não dá para exportar, mas hidrogênio verde sim. Então a conversão dessa energia limpa em hidrogênio verde e abastecer o mercado mundial é uma perspectiva bastante provável nos próximos anos. Não é a toa que observamos uma cooperação como essa entre Alemanha e Brasil para um centro de formação em hidrogênio verde no RN que se estende para outros cinco estados. A meta agora é preparar o Senai para que o Senai possa capacitar a juventude com perfil de competências adequadas para esse tipo de demanda que virá. O mundo está ávido por energia limpa e nós temos no Brasil uma enorme oportunidade de sermos um grande fornecedor de energia limpa. E nisso se insere o hidrogênio verde. Temos várias rotas para se obtê-lo e nós também temos uma enorme variedade de biomassas que podem participar desse processo. Então essa quantidade enorme de oportunidades num único país, é que cria esse cenário positivo. Agora, é fato que temos muito o que fazer ainda, não é algo que está já colocado. O primeiro desafio é baratear a produção de hidrogênio verde. O hidrogênio ainda é muito caro se comparado com a energia convencional. Então para ele se viabilizar, precisa-se de uma redução de custos de produção. Uma parte disso virá pela escala e outra parte virá pela melhoria dos processos tecnológicos ligados a isso. Outro desafio é a questão do armazenamento do hidrogênio, que é uma molécula muito pequena e exige cuidados muito sérios no que diz respeito ao manuseio e armazenamento, se não há riscos sérios de explosão. Outro desafio é desenvolvermos células de combustíveis, caso se pense em mobilidade, com veículos, trens, navios. O uso de hidrogênio vai exigir cada vez mais células de combustíveis mais eficientes e eficazes.
O Hidrogênio Verde é um mercado que vai gerar oportunidades em quais áreas? O Senai pode ajudar nesse sentido?
A produção do hidrogênio por si só já é uma oportunidade. Teremos plantas, eletrolizadores, rotas das mais diversas possíveis, a partir de biomassa, de água, de água suja, água salgada, enfim, várias rotas para se produzir o hidrogênio verde. Depois se tem logística de distribuição, armazenamento, uso do hidrogênio verde como fonte energética para diversos processos químicos, como aço verde, química verde, cimento verde. É usar o H2V substituindo o combustível fóssil e com isso você tem uma geração bem menor de CO2 e isso tudo vai ser muito valorizado no mundo nos próximos anos, principalmente se tivermos agravamento das questões climáticas.
Gera-se oportunidades no mercado de trabalho também?
Sim, com certeza. No último levantamento que vi há uma estimativa de cerca de 4,5 milhões de novos empregos no mundo na cadeia da produção e utilização do H2V quando esse custo baratear. Certamente, nessa hora e nesse momento, é importante que tenhamos instituições como o Senai já preparadas para formar pessoas com esse perfil de conhecimento necessário para as cadeias produtivas.
Então, com certeza, teremos capacitações, aumento de oferta de cursos no Senai…
Como não existe essa mão de obra no mercado, a medida que você vai formando e a demanda vai chegando, deveremos ter um atrativo em termos de salários, porque quando é escasso o mercado termina pagando um pouco mais.
Nos primeiros leilões da energia eólica aqui no RN, tínhamos uma mão de obra bem estrangeira, perfil que mudou nos últimos anos, passando a ser uma expertise local. Há a chance de iniciarmos os trabalhos com o H2V já com mão de obra local e quem sabe sermos um exportador de mão de obra nessa área?
A ideia desse projeto inaugurado no RN é justamente isso, se antecipar ao movimento do mercado e que possamos estar preparados para desenvolvermos competências para as pessoas num tempo adequado. Se isso acontecer, certamente os locais vão ter condições de ter acesso a essas oportunidades.
Já se sabe o volume de investimentos na área de Hidrogênio Verde no Brasil?
O que a gente vê são mobilizações de empresas procurando viabilizar seus projetos aqui, isso geralmente em áreas portuárias e competitivas. Há a sinalização de vários projetos em andamento, mas já há um volume grande. Recentemente a União Europeia sinalizou o interesse de investir fortemente no Brasil em plantas de H2V.
O Nordeste será o ponto essencial nessa corrida?
O Nordeste tem tudo para ser ponto essencial sim nessa corrida do Hidrogênio Verde. É onde se gera mais energia renovável que é a matéria-prima do H2V. É natural que tenha vocação natural para convertê-la em H2V. Se você olhar espacialmente o Nordeste está muito próximo da Europa e dos Estados Unidos. Há condições bem favoráveis para investimentos na região.
quem
Gustavo Leal é Diretor Geral do Senai. Coordena as atividades de educação profissional, inovação organizacional e tecnológica, disseminação de conhecimentos, informações e aplicações, intercâmbio de experiências, torneios de formação profissional, acordos com empresas, estudos, pesquisas e projetos, cooperação nacional e internacional. É graduado em Engenharia Química pela Universidade Federal da Bahia e pós-graduado em Engenharia de Processamento Petroquímico pela UFBA/Petrobras, com Especialização em Cinética e Catálise e em Gestão da Qualidade (UFBA). Está no Senai há 20 anos. Foi diretor regional do Senai da Bahia e diretor do Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec). Antes disso, foi engenheiro químico da Dow Brasil, empresa multinacional americana do ramo químico.
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