Redes sociais e plataformas digitais estão cada vez mais presentes na vida de jovens, que acabam passando muitas horas do dia conectados no celular. No entanto, o uso excessivo da internet por adolescentes traz diversos riscos à saúde, incluindo problemas de saúde mental como ansiedade e depressão, além de riscos relacionados ao cyberbullying, exposição a conteúdos inadequados e vícios. Segundo o Relatório Digital 2024, da DataReportal, o Brasil é o segundo país com maior consumo diário de internet no mundo.
Em média, ficamos conectados diariamente por 9 horas e 13 minutos, atrás apenas da África do Sul. E, somente nas redes sociais, o brasileiro gasta quase 4 horas do dia. A pesquisa “Redes sociais e a saúde mental dos jovens”, divulgada pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos em 2023, informa que 95% dos jovens de 13 a 17 anos relatam usar as redes sociais. Um terço deles afirma usar “quase constantemente”.
De acordo com a psicóloga, Ana Paula Souza, o uso excessivo de telas pode prejudicar a saúde mental e aumentar casos de ansiedade e depressão. Isso ocorre porque os adolescentes são frequentemente expostos a comparações sociais que podem levar à insatisfação corporal e a sentimentos de inadequação. “A questão é que os adolescentes estão numa fase muito vulnerável ainda, numa fase de desenvolvimento cognitivo. Então, todas essas questões precisam ser observadas, trabalhadas, discutidas entre pais, familiares, educadores e com os próprios adolescentes. Porque como eles estão em um período de afirmação de identidade, não adianta chegarmos impondo. A gente precisa discutir com eles, para que eles entendam os riscos”, aponta.
A pressão social e estética é um dos fatores que também pode gerar ansiedade nos jovens, de acordo com a psicóloga. “Eles visualizam coisas perfeitas, um ideal de beleza, um ideal de vida que pode levar a uma frustração, uma insatisfação corporal. Existe também a questão dos sentimentos de inadequação, essa busca de aprovação por likes, por feeds, comentários, isso tudo alimenta um ciclo de ansiedade, de pressão social. Então, reconhecer o impacto que o uso das redes traz pra se argumentar com os jovens, é algo que a gente precisa realmente trazer pra atenção pública”, afirma Ana Paula
Cyberbullying e violência
A psicóloga especialista em adolescente, Débora Sampaio, também descreve essa fase como uma etapa de vulnerabilidade. “É uma etapa da vida que a gente sai da família e vai para o social. É um processo em que eles estão descobrindo quem são, então eles são extremamente influenciáveis”. Nessa fase, explica a psicóloga, o jovem tem necessidade de pertencimento, então ele busca comunidades e grupos em que possa se sentir legitimado, o que pode ser perigoso. “O que a gente vê no mundo digital são grupos, inclusive de adultos, que se passam por crianças ou adolescentes, o que chamamos de predadores, que criam relações de confiança e começam a solicitar dados, e muitas vezes diante da posse de uma informação ou imagem, eles começam a chantagear”, explica.
Débora alerta para o conteúdo de algumas comunidades online. De acordo com a psicóloga, é nesse ambiente que pode ocorrer incitação à violência, acesso a conteúdos adultos, e o cyberbullying, que é a prática de violência através de redes sociais, aplicativos de mensagens e jogos online. “Temos conhecimento de comunidades que ensinam os adolescentes a se autolesionar. Tem os desafios perigosos da internet, o adolescente não quer se sentir superado. Então esses desafios vem ai como algo que traz muito perigo, inclusive situações de morte”, afirma.
Pais devem ficar atentos aos sinais
Especialistas apontam alguns sinais importantes que os pais podem observar e que indicam comportamentos de risco relacionados ao uso excessivo das redes e internet. O isolamento social, impacto na qualidade do sono, alteração do desempenho escolar e mudanças de humor são os principais sinais de alerta para o intenso uso de telas, de acordo com psicólogos.
“A intensidade emocional é uma característica da adolescência, então precisamos observar o isolamento. Essa é uma fase de nascer social, é nascer para novas relações além da família, então se ele está muito isolado, se não tem amigos presenciais, se não vai para lugar algum, tem alguma coisa errada. E mesmo se tiver amigos virtuais, quem são esses amigos? De onde são? Que grupo eles fazem parte? Então são sinais que os pais devem atentar”, afirma a psicóloga.
Parentalidade distraída
Os psicólogos enfatizam que a participação e diálogo entre pais e filhos é fundamental para identificar e evitar situações de risco online, mas também é necessário “dar o exemplo” para evitar o fenômeno da parentalidade distraída. Esse termo refere-se ao fato de que os pais, embora fisicamente presentes, estão emocionalmente ausentes devido ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos.
Jussiara Silva, mãe de Jéssica, de 18 anos, afirma que passa muito tempo no celular e que é a própria filha quem a alerta sobre o assunto. “Ela quem me chama a atenção, ‘mãe, solta o celular’, mas sempre de uma forma muito tranquila. Eu uso o celular pra socialização, mas também uso muito para trabalho e é ela quem me chama atenção”, declara. Jussiara conta que sua filha tem acesso livre a internet e redes, mas sempre buscou mostrar os perigos que podem existir.
“Eu conversava muito, alertava, mostrava a ela nos jornais os casos de quem se passava por crianças, mas na verdade eram pedófilos. Ela sempre teve acesso livre, mas com muito esclarecimento”, afirma. Com relação a limites, Jussiara conta que se arrepende de ter liberado acesso às redes quando a filha tinha 14 anos, mas que sempre quando percebe o exagero de uso por parte de Jéssica, elas conversam e acabam se entendendo.
Mesmo não estabelecendo limites claros para o tempo de uso de redes sociais, Jussiara acredita que a relação da filha com o meio digital é saudável. “Tenho medo sim, mas também sei que se não tivesse dado essa liberdade para ela, ela iria atrás de descobrir as coisas de outras formas”, conta Jussiara sobre o medo de sua filha passar por algum tipo de violência digital. A mãe explica que usa jogos e assiste séries acompanhada da filha e que essa é uma maneira delas se conectarem mais e deixarem as telas de lado.
A psicóloga Débora Sampaio atenta para o fato que os adolescentes buscam espelhos, e os pais são os primeiros referenciais que eles têm, então precisam dar exemplos e limites. “Ele já entende a realidade, então ele percebe claramente se esse pai está se excedendo. É claro que adultos tem demandas que são além de redes sociais e jogos, mas são combinados que devem se fazer e envolver toda a dinâmica da família”, afirma Débora.
Dicas para evitar excessos
Os especialistas alertam para a importância de pais e responsáveis orientarem e monitorarem o uso de dispositivos eletrônicos, estabelecendo limites e promovendo um uso consciente e seguro. O tema, inclusive, tem sido abordado pela nova campanha institucional da Assembleia Legislativa do RN: “Adolescência: acompanhe, compreenda e acolha”.
Débora Sampaio explica que os pais precisam saber qual o interesse dos jovens no mundo digital, pois existem coisas que também são positivas. No entanto, para o uso saudável, não se deve flexibilizar a rotina de sono, alimentação e horário de estudo, além de atividades fora das telas. Segundo a psicóloga, é importante conversar abertamente e sem julgamentos sobre o tema, principalmente usando casos que saem na mídia para fazer o adolescente refletir.
“Estamos diante de novos adoecimentos que envolvem o mundo digital e os adolescentes estão mais suscetíveis. A presença, a supervisão, o diálogo são comportamentos- chave. A gente precisa desenvolver nos adolescentes a consciência digital. E claro que isso é um movimento social, envolve escola, sociedade, legislação, política pública. Tudo para proteger e educar nossas crianças e adolescentes”, afirma Débora.
Tribuna do Norte

