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Empreendedora fatura R$ 40 mil por mês com marca de roupas exclusiva para mulheres negras

Valérie Alves, 35 anos, criou a grife Guettosa após dar à luz sua segunda filha. Marca oferece um catálogo com peças costuradas por mães moradoras do bairro da empreendedora.

A ideia da grife Guettosa nasceu dentro da cozinha da mãe de Valérie Alves, 35 anos. O momento era delicado: depois da segunda gravidez, ela tinha tentado uma recolocação no setor de varejo — área em que possuía mais de 10 anos de experiência —, mas percebeu que o mercado de trabalho não estava mais disponível para ela. Hoje, sua marca de roupas exclusiva para mulheres pretas veste nomes como Jojo Toddynho, Glória Groove, as gêmeas Tasha & Tracie e a ex-BBB Maria.

O período em que foi em busca de trabalho acabou sendo revelador. “Entendi que precisava criar a minha própria oportunidade de trabalho e tirei o meu sonho de empreender do papel”, aafirma. “Sempre quis ter meu próprio negócio, mas comecei a empreender por necessidade, não apenas por um sonho”, diz.

Em 2018, a empreendedora começou a costurar peças sob medida para mulheres pretas e a divulgar no seu perfil no Instagram. Ela usava como inspiração modelos que via em revistas norte-americanas de moda e de cultura preta. “A primeira peça que fez bastante sucesso foi um top glam de strass, bem brilhoso e glamoroso. Uma amiga foi falando para a outra, compartilhando nas redes e foram chegando influenciadores e artistas interessados. Percebi que estava atingindo meu público-alvo quando a Jojo Toddynho me mandou mensagem no Instagram perguntando qual era o valor da peça”, relata.

A demanda começou a aumentar nos meses seguintes, assim em 2019 ela consolidou a Guettosa. A proposta é atender mulheres negras com roupas feitas com tecidos mais leves e finos, que possam ter um caimento perfeito. “Como a moda precisa ser inclusiva, faço do tamanho PP ao G3, plus size. Minhas clientes trazem muitas referências ‘gringas’. Elas adoram brilho, transparência e tule”, diz.Ela conta estava no auge do crescimento e já atuava de forma online quando a pandemia começou. “A crise não interferiu muito no nosso negócio”, afirma. Para ela, um dos maiores trunfos é que na periferia, as mulheres não se importam em pagar mais caro por um produto de qualidade.

O catálogo da marca conta com vestidos, conjuntos, biquínis, macacões, tops e saias, tudo produzido por costureiras que são mães e moram no mesmo bairro de Alves, na periferia da zona leste de São Paulo. “O nosso principal foco são roupas para festa, para dar um rolê, para ir naquele date. Temos também algumas peças que são básicas, para o dia a dia. Mas sempre digo que as nossas roupas são feitas para você chegar a um local e arrasar”, afirma.

Ela conta que percebeu que o negócio estava dando certo quando conseguiu contratar outras mulheres. “Vi que meu esforço estava dando resultando quando passei a empregar outras mães, pretas e de periferia como eu. Isso tudo me proporcionou um sentimento de gratidão e alegria.”

O e-commerce da Guettosa atende todo o país e fatura R$ 40 mil mensais em média. “Também temos clientes fora do Brasil, em países da Europa. Mas nossas vendas são mais fortes na capital de São Paulo e no Rio de Janeiro, lugares em que temos planos de abrir lojas físicas”, afirma.O objetivo para este ano é alcançar receitas mensais de R$100 mil para atrair investidores e iniciar o processo de expansão.

Capacitação ajudou no começoPara dar conta do próprio negócio, Alves foi estudar administração e criou seu planejamento financeiro. “Não cursei uma faculdade, mas a minha experiência no varejo foi uma grande escola. Tudo que aprendi e vivenciei no setor me ajudou no meu negócio. Como não foi suficiente, busquei especializações no Sebrae”, diz.

Ela conta que também teve dificuldade para definir seu público-alvo e achar um diferencial. “Quando converso com mulheres que estão começando a empreender, sempre digo que o primeiro passo é saber exatamente o que elas querem. Para isso, é preciso determinação e planejamento. É pegar papel e caneta, programar cada passo, independente do serviço ou produto. Ter um diferencial e investir no atendimento ao cliente”, recomenda a empreendedora. “Você precisa gostar de lidar com as pessoas, senão seu negócio vai dar certo”, diz.EmpoderamentoAlves também ensina corte e costura para mulheres da comunidade que estão interessadas em aprender a atividade do zero. Com o intuito de fortalecer a autoestima e criar uma rede de mulheres empreendedoras, ela criou ao lado de Tasha, Tracie, Aniele e Stephani Mauricio, o coletivo de moda e ativismo Mulher Preta Independente da Favela.Segundo ela, o principal objetivo é fomentar o empreendedorismo da mulher preta da periferia. “O nosso intuito é ser uma rede de fortalecimento, queremos mostrar que elas podem ser o que quiserem, criando e administrando seus próprios negócios, acreditando em si mesmas. Queremos que elas passem a enxergar a potência da mulher preta”, finaliza.

Por Evelin Mendes

Construções Recreio