Felipe Salustino
Repórter

Figuras de onças, araras e tucanos cuidadosamente confeccionados sob o talento e o zelo de bordadeiras de Timbaúba dos Batistas, município do Seridó potiguar, vão estampar o uniforme da delegação brasileira e estarão sob os olhos do mundo em julho, durante a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris, na França. As peças são fornecidas ao Comitê Olímpico do Brasil (COB) por meio de uma parceria com o Instituto Riachuelo e a Prefeitura de Timbaúba. A fabricação está nas mãos de 80 bordadeiras da Cooperativa das Mãos Artesanais de Timbaúba dos Batistas (Comart).

Salmira Clemente, sócia-fundadora da Comart, diz que a expectativa pela abertura da competição, marcada para o dia 26 de julho, é grande. Ela conta que a ideia de fazer o uniforme com aplicação de bordados partiu do Instituto Riachuelo, que atua junto às oficinas de costura do interior, por meio do Pró-Sertão. Coube a três bordadeiras a responsabilidade de confecção das peças-piloto, com animais da fauna brasileira. Hoje, já são quase 1,4 mil peças confeccionadas, com expectativa de que o COB faça novos pedidos.

“Elas tiveram um período muito curto para criar essas peças-piloto – entre outubro de 2023 e a primeira quinzena deste de janeiro deste ano. Enviamos o material para a Guararapes, que nos pediu alguns ajustes até tudo ser aprovado. Foi emocionante. Fizemos um produto em um pequeno espaço de tempo para um grande evento internacional, com o zelo pelo compromisso da data da entrega”, comenta Salmira Clemente, orgulhosa do trabalho que a equipe conseguiu desenvolver.

O uniforme da delegação para a abertura das Olimpíadas é composto por saia branca para as mulheres, calça branca para os homens, camisetas nas cores da bandeira brasileira e jaquetas com os bordados confeccionados pelas mulheres potiguares. “A gente faz os bordados, entrega a Riachuelo, que aplica nas jaquetas e entrega para o COB”, explica Clemente. Ao todo, já foram feitos três pedidos à Comart – sendo o primeiro, com o maior número de peças (1,2 mil aproximadamente). O último deles, será entregue na próxima segunda-feira (18), com 150 unidades. A expectativa, no entanto, é que novos pedidos sejam feitos.

Isso porque o número de brasileiros classificados para o torneio ainda não está fechado. Salmira Clemente, sócia-fundadora da Cooperativa, ressalta que o trabalho das bordadeiras é todo desenvolvido em casa. “É preferível que seja assim, porque as mulheres conciliam o bordado com afazeres domésticos. Elas trabalham de quatro a 10 horas por dias, mas tudo é muito flexível”, diz.

O retorno financeiro para as mulheres é expressivo. Algumas chegaram a fazer, em média R$ 6 mil em um único mês, segundo Clemente. A sensação de ver o trabalho sob os holofotes durante o principal evento esportivo do mundo, no entanto, não tem preço. “É como se todas tivessem recebido uma bênção divina – de serem alcançadas pela graça do reconhecimento pelo próprio trabalho. Essas mulheres saíram da invisibilidade e, hoje, quem veste uma peça da delegação sabe exatamente a origem do produto”, conta Salmira.

Ela revela que os bordados confeccionados para as Olimpíadas só poderão ser comercializados depois da competição, mas atletas já puderam provar as peças, como fez Bárbara Domingos, da ginástica rítmica. Ela experimentou, em Timbaúba dos Batista, a jaqueta que deverá usar em julho em Paris. Até lá, aliás, fica a expectativa e a torcida para que o trabalho das mulheres do Seridó potiguar leve sorte para a delegação e que os atletas brasileiros conquistem muitas medalhas para o País.

“Esperamos levar muita sorte, porque o bordado tem uma energia secular, que faz parte da nossa cultura e é passada de geração em geração”, pontua Salmira Clemente.

“O bordado é terapia, é o nosso combustível que tem o tempo do amor. A gente tem o hábito de, quando finaliza a peça, observa, admira e agradece a Deus pelo que conseguiu fazer”, completa. As peças serão utilizadas em um desfile diferente do que se viu nas Olimpíadas em anos anteriores, que aconteciam em estádios. Em 2024, o desfile será em barcos, os quais irão navegar pelo Rio Sena, observados de perto por espectadores que acompanharão o evento de abertura.

Tribuna do Norte

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