O gesto do tiro com arco e flecha é a marca de Bill, atacante do Nova Iguaçu e destaque do Carioca. O atacante comemora seus gols assim em homenagem ao orixá Oxóssi, do candomblé. E não foi diferente quando marcou sobre o Vasco, no domingo, em jogo que sacramentou a vaga de sua equipe na final do Carioca.

Vídeos da comemoração viralizaram após o jogo. Nas imagens, o jogador simula o tiro de arco e a flecha e diz para a câmera: “Nunca foi sorte, sempre foi meu pai Oxóssi”. Nas redes sociais, a frase recebeu respostas preconceituosas.

Comentários com teor de intolerância religiosa contra Bill, do Nova Iguaçu — Foto: Reprodução: X

Comentários com teor de intolerância religiosa contra Bill, do Nova Iguaçu — Foto: Reprodução: X

Em novembro do ano passado, Paulinho, do Atlético-MG, também foi alvo de ataques depois de marcar sobre o Flamengo, no Maracanã. O atacante foi um dos primeiros a comemorar seus gols dessa maneira.

Bill admitiu ao ge ter ficado triste com os comentários, mas garantiu que não vai mudar sua postura.

– A comemoração representa minha mudança como ser humano. Eu morri para o mundo e renasci para o meu lado espiritual. Eu me sinto muito melhor. A fé está em todas as áreas da minha vida, no lado profissional, pessoal, psicológico. A importância é máxima. É uma coisa que vou continuar fazendo, vou levar para o resto da vida. E quem não gostar, vou fazer o quê? Só precisam me respeitar.

Aos 24 anos, Bill é um dos líderes do elenco, dentro e fora de campo, e a fé está em sua essência. O jogador é filho de uma Ialorixá, a Mãe Carla, conhecida em Belford Roxo-RJ.

– A gente tem que saber conviver. É uma coisa natural. Ele usa isso e também faz a oração com os jogadores, puxa as mensagens antes dos jogos. É uma prova de que ele convive junto com a gente. Por que a gente não pode conviver com o que ele pensa? – disse o presidente do Nova Iguaçu, Jânio Moraes.

O dirigente é católico, mas também frequenta uma igreja evangélica junto à família. O apoio ao jogador é compartilhado pelo técnico Carlos Vitor, que há alguns meses integra a Assembleia de Deus e comemorou a classificação histórica do Nova Iguaçu em um culto . Seu respeito às diferenças começa em casa, com a esposa, que é adepta do espiritismo.

– A gente não está aqui para julgar ninguém. A gente precisa respeitar a escolha de ninguém. Deus não faz acepção de pessoas. É muito natural entre os jogadores essas diferenças. O importante é cumprirmos o nosso propósito – afirmou o treinador.

Revelado pelo Flamengo, Bill quer novas oportunidades de comemorar os gols à sua maneira diante do ex-clube, nas finais do Campeonato Carioca. O jogo de ida está marcado para o dia 30, no Maracanã.

– A gente só vai conseguir combater se continuar tendo cada vez menos vergonha de quem nós somos, do que nós somos. Isso serve para qualquer situação: intolerância religiosa, racial. Fica um pouco um sentimento de tristeza pela intolerância das pessoas. Mas a gente tem que continuar batendo nessa tecla porque um dia essa situação acaba – disse o jogador.

Por ge

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