O SENAI do Rio Grande do Norte recebeu, nesta semana, o “Selo ODS Educação” – um reconhecimento nacional público pela formação das primeiras mulheres especialistas do Rio Grande do Norte em operação e manutenção de parques eólicos.

O projeto, realizado pelo Centro de Tecnologias do Gás e Energias Renováveis (CTGAS-ER), da instituição, em parceria com a AES Brasil, teve o objetivo de impulsionar a participação feminina no mercado, em um contexto nacional e internacional em que os homens são maioria.

“Iniciativas com a perspectiva de igualdade de gênero estão gerando resultados positivos”, diz a diretora do CTGAS-ER, Amora Vieira, frisando, entretanto, que mais avanços são necessários nesse caminho. “Ainda há paradigmas a serem vencidos, do tipo que segrega ‘trabalho de homem e trabalho de mulher’, por exemplo”.

Amora Vieira é bacharel em Administração com habilitação em Gestão de Negócios, pela Universidade Potiguar (UNP), especialista em Gestão da Qualidade pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Diretora do SENAI CTGAS-ER, atua na liderança da pauta de ESG para o SENAI-RN, articulando e pensando em projetos de educação para a Indústria. Ela está à frente de ações do SENAI do Rio Grande do Norte ligadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), incluindo a adesão da instituição ao Pacto Global de Direitos Humanos, Trabalho, Meio Ambiente e Anticorrupção da ONU.

Nesta entrevista, a executiva fala sobre desafios e oportunidades que a busca por redução de desigualdades no mercado traz. Confira:

Como você avalia o cenário hoje para meninas e mulheres em áreas tecnológicas no Rio Grande do Norte?
O mercado para as profissões tecnológicas é acessível, mas precisa avançar mais. Há instituições, como o SENAI-RN, com investidas em ações para promover a participação de meninas e mulheres na área. Abrimos uma frente importante pelas demandas da indústria de energia – de um lado a demanda da indústria e de outro o SENAI como provedor da solução em educação. Mas foi preciso pensar em uma estratégia de comunicação, de engajamento. Estabelecer um processo de execução que envolvesse o “despertar” do interesse, a curiosidade sobre a área tecnológica.

Mas é possível dizer que as ações para igualdade de gênero estão funcionando?
Iniciativas com essa perspectiva estão gerando resultados positivos. A participação feminina em cursos de energia eólica do CTGAS-ER, por exemplo, saltou de 9% para 32% entre 2018 e 2023. Dados e evidências comprovam a efetividade das ações. Projetos com alta demanda, turmas formadas e baixo índice de desistência demonstram o grande interesse das mulheres nas iniciativas e seu alto engajamento e compromisso. Entre os exemplos recentes de ações eficazes é possível citar o projeto Meninas em Ação, que estimulou o interesse de jovens estudantes por áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), a formação de mulheres especialistas em manutenção e operação de parques eólicos, que foi reconhecida nacionalmente esta semana com o Selo ODS Educação, e a participação de nossas alunas e ex-alunas em pautas jornalísticas diversas, compartilhando suas histórias e inspirando outras mulheres a seguirem carreiras em áreas tradicionalmente masculinas.

Os avanços nesse sentido têm sido percebidos somente na indústria de energia eólica ou em outros setores também é visível?
Não somente na indústria eólica. Já tivemos a experiência de turma exclusiva de mulheres para a concessionária de energia elétrica do nosso estado. A partir desse modelo, ampliamos, desenvolvemos e incrementamos as ações de entrega de projetos em educação para mulheres. Um projeto na área de refrigeração, que realizamos com apoio da agência de cooperação alemã GIZ, também demonstra a replicabilidade do modelo em outros setores. No SENAI Mossoró, outro exemplo. A unidade está desenvolvendo a entrega de educação para turmas mistas para o segmento de Petróleo. Visualizamos que a indústria de Mineração do Estado também está promovendo ações para turmas de homens e mulheres. A nossa intenção e desejo é levar isso a todos os segmentos industriais, porque ele é real, possível, viável e há interesse das mulheres em formação na carreira tecnológica.

Qual é o desafio para que esse movimento avance de forma mais generalizada no mercado?
Ainda há paradigmas a serem vencidos, do tipo que segrega ‘trabalho de homem e trabalho de mulher’, por exemplo. Situações que ainda causam estranheza quando atuamos na oferta de um curso de Armador de Ferro e Pedreiro para homens e mulheres, e ouvimos coisas do tipo “quando for para fixar o ferro a gente ajuda as mulheres a fazer” – isso dito na melhor das intenções. Na verdade, o que as mulheres querem é decidir se é aquilo que querem, querem sentir, experimentar, se precisarmos de ajuda solicitaremos. Elas querem chegar ao final do dia com o sentimento do dever de ofício atendido, cansadas, mas gratificadas, e sem privilégios que limitem a sua atuação profissional por uma questão de gênero. Um outro desafio é sobre a experiência: recebo algumas “queixas” de que grande parte das vagas exige experiência prévia, e sem oportunidade não há experiência.

Você diria que o aumento da participação feminina depende de que?
Depende de acreditar que é possível, de buscar se qualificar, se aperfeiçoar, de mapear oportunidades de desenvolvimento pessoal. Muitas empresas possuem projetos de orientação profissional gratuitos para mulheres. Da inserção delas em cargos técnicos, estratégicos e compondo equipes diversas, com a sua capacidade de entrega a partir de sua competência técnica, da sua capacidade de estar onde está por mérito. Existem inúmeros exemplos de mulheres que atuam na liderança de projetos técnicos para a indústria, contribuindo com o desenvolvimento de pesquisas de ponta.

Há um universo de possibilidades, nosso intuito não é direcionar para um lado ou para outro, mas ampliar a visão, orientar se houver interesse, e informar que há uma outra rota e que essa pode ser também o caminho possível, acessível e gratificante assim como executar uma cirurgia bem sucedida, como conseguir emplacar uma coleção para a indústria da moda. Imagina participar de um projeto hoje que visa a produção de um combustível sustentável. Imaginar que estamos construindo hoje um futuro sustentável – olhar para trás e ter pertencido a isso?! Outras e inúmeras “Maries Curies” estão nas universidades, Centros de Pesquisas, nas Indústrias – Elas são reais e atuais.

Você mencionou o Selo ODS Educação. Durante a cerimônia de entrega, nesta semana, o Instituto Selo Social, uma das instituições que concedem o reconhecimento, alertou que o caminho para que metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU sejam atingidas ainda é longo e que as instituições de ensino são “braços” fundamentais para o Brasil avançar nessa agenda. Como avalia o papel que o SENAI tem desempenhado nesse contexto e quais são as perspectivas a partir de agora?
O SENAI-RN tem tido sua atuação reconhecida pela indústria de Energia, temos debatido em eventos do setor, levando exemplos e projetos realizados. Afirmamos a credibilidade e a responsabilidade na entrega de projetos dessa natureza, algo que é intrínseco à nossa missão e propósito. Assim endossamos nosso papel de sermos uma instituição de formação profissional para a Indústria. Quanto às perspectivas, gostaria de perceber o movimento natural do interesse das mulheres nesse tipo de oferta, da indústria encontrando um novo significado sobre a ótica de que um ambiente diverso tem amplitude para o negócio, para o desenvolvimento de uma indústria mais competitiva.

Tribuna do Norte

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes