Hermano Neto é presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Rio Grande do Norte (Asplan/RN), estando à frente da entidade desde 2021. Atualmente cumpre o segundo mandato, que segue até 2029. Ele também foi eleito conselheiro titular da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (Feplana) para o biênio 2025/2026. Com trajetória ligada historicamente ao setor sucroenergético, ele representa a continuidade de uma tradição familiar na produção de cana-de-açúcar, atividade iniciada ainda nas gerações anteriores de sua família, que atua há décadas no segmento. Foto: João Gilberto

 

O setor sucroenergético do Rio Grande do Norte enfrenta um cenário de pressão crescente provocado pela alta do diesel, aumento no preço dos fertilizantes e queda no valor da cana-de-açúcar. Segundo o presidente da Associação dos Plantadores de Cana do RN (Asplan/RN), Hermano Neto, os produtores têm enfrentado dificuldades para manter a atividade diante do avanço dos custos operacionais e dos impactos do tarifaço imposto pelo governo amercicano sobre o açúcar brasileiro.

 

A entidade alerta para o risco de redução na qualidade dos canaviais caso produtores deixem de investir em adubação e manejo por falta de recursos financeiros. “Vai ter que tirar dinheiro do próprio bolso para conseguir fazer o CCT (Corte, Carregamento e Transporte)”, diz o produtor rural.

 

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o presidente da associação ainda reclamou da falta de incentivos do governo estadual, ao contrário do que fazem estados vizinhos, como Paraíba e Pernambuco, que incentivam produtores de cana oferecendo adubo, subsídios e facilitando as comercializações diretas.

 

Que avaliação você faz da safra e moagem da cana-de-açúcar no Rio Grande do Norte neste ciclo mais recente e qual a previsão de produção?

 

A gente está na entressafra. As usinas estão paradas e os produtores não estão moendo cana, nem as usinas. A safra está prevista para começo de agosto, finalzinho de julho. O ano passado a gente fez em torno de 3,5 milhões de toneladas. Esse ano deve manter ou levemente subir. Em termos de desempenho, todo mundo tem feito das tripas coração para tentar sobreviver no setor. A cana está sofrendo diretamente com as tarifas de Donald Trump desde agosto. Desde que ele implantou, no Brasil, por conta da exportação do açúcar, o preço despencou e os custos de operação hoje não cobrem a parte remunerada, onde a remuneração da cana não está cobrindo os custos. É uma situação crítica.

 

Como o Rio Grande do Norte está posicionado no cenário do setor sucroenergético no Nordeste em termos de volume de produção? O estado tem conseguido ampliar seu potencial produtivo ao longo dos anos? Quais os principais números do setor?

 

No Nordeste, o RN é um dos menores estados. O pioneiro, vamos dizer, o líder, seria Alagoas, seguido por Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Piauí. Isso aí a escala de produção é mais ou menos essa. Mas não quer dizer que, porque ele está atrás no Nordeste, que seja pequeno. A gente já chegou a moer quatro milhões de toneladas e foi recorde, foi na safra 2024-2025. E isso gera uma cadeia de empregos e social fora do normal. A cana hoje talvez seja um dos principais produtos agrícolas do Rio Grande do Norte. Nós ampliamos muito a produção de cana. Há três anos atrás, as safras 2023 eram em torno de 2,8 milhões a três milhões de toneladas; a gente chegou a 4 milhões de toneladas em 2024 e ficamos extremamente prejudicados por conta dessa história do tarifaço.

 

A guerra no Oriente Médio tem elevado o preço do petróleo e, consequentemente, do diesel. Como esse aumento tem impactado os custos de produção no campo e o preço do frete para os produtores de cana?

 

É imensurável, talvez fique até inviável. Se tirar a cana do campo com o óleo diesel do jeito que está e o preço da cana lá embaixo, o produtor não vai conseguir retirar a cana com o preço do óleo da forma como está e a cana em baixa. Vai ter que tirar dinheiro do próprio bolso para conseguir fazer o CCT (Corte, Carregamento e Transporte). A guerra do Oriente Médio realmente está nos atingindo diretamente não só na parte do óleo diesel, mas também como a parte dos insumos agrícolas, como é o caso de fertilizantes. Boa parte desses fertilizantes sai lá pelo Estreito de Ormuz e está com esse problema aí que a gente tem conhecimento.

 

De forma prática, como a alta dos fertilizantes e defensivos agrícolas tem prejudicado os plantadores de cana e de que forma esses custos acabam sendo repassados ao consumidor final?

 

Como já citei, o preço da cana está baixíssimo. Hoje, no Nordeste, está em torno de R$ 7,40, enquanto o adubo dobrou de preço, o herbicida triplicou e todos esses insumos são a base da produção da cana-de-açúcar. Quando eles aumentam, a cana teria que acompanhar, mas infelizmente isso não aconteceu. E está aí a defasagem de preço em relação aos custos de produção. Com certeza com o aumento desses fertilizantes e do herbicida o produtor não vai conseguir comprar. Não comprando, o canavial vai perder sua qualidade. O canavial perdendo sua qualidade, a matéria-prima chega com baixa qualidade na indústria. E é uma cadeia de efeito cascata.

 

Por outro lado, esse mesmo cenário pode abrir oportunidades para o setor sucroenergético. Recentemente o governo anunciou o aumento da mistura de etanol anidro na gasolina para 32%. Esse movimento será capaz de impulsionar o setor? E como o RN irá se beneficiar desse cenário?

 

É uma ajuda, mas nós, da associação e da federação, já estamos lutando para aumentar isso para 35%. Com certeza, é um número que vai nos alavancar bastante e amenizar essa queda do açúcar, porque o preço da cana é baseado no açúcar e na venda do etanol. Então, no momento em que passamos a consumir mais etanol na gasolina, consequentemente vamos consumir mais etanol nas usinas. A produção terá mais liquidez e, consequentemente, o preço também aumenta. No RN, falta incentivo do governo estadual. Há exemplos nos estados vizinhos, como Paraíba e Pernambuco: os governos

estaduais estão incentivando o produtor rural e o produtor de cana, oferecendo adubo, subsídios e facilitando as comercializações diretas, como a venda direta de etanol.

Quais são, hoje, os principais gargalos enfrentados pelo setor de cana-de-açúcar no RN? E quais são as pautas prioritárias defendidas pela Asplan junto ao Ministério da Agricultura para fortalecer a atividade no Estado?

 

Os principais gargalos seriam a parte realmente de custo de operação, que é o risco. Também falta de mão de obra qualificada. Nossa mão de obra aqui no estado é bastante defasada em termos de número e qualidade. O preço do óleo diesel está extremamente inviável. Tem muitos produtores que estão deixando de tratar os canaviais porque estão sem dinheiro. A crise também não atingiu somente os produtores, mas atingiu os vizinhos também, que é a nossa base de entrega. A gente tentou esse ano uma subvenção junto ao Ministério da Agricultura para os produtores de cana de R$ 12 por tonelada, para tentar amenizar isso aí, mas infelizmente até agora sem sucesso. O governo não tem interesse que isso rode. A gente está tentando agir de forma política para tentar conseguir essa subvenção, mas até agora sem sucesso

 

O avanço do etanol de milho no Brasil é visto como uma concorrência direta para a cana ou há espaço para convivência entre os dois modelos?

 

O avanço do etanol de milho no Brasil é visto como uma concorrência direta para a cana ou há espaço para convivência entre os dois modelos?

 

Com certeza há espaço. Tinha esse paradigma no começo de que o etanol de milho ia bater muito com o etanol

de cana, mas a gente não vê dessa forma, a gente vê como aliado e não como concorrente. Estamos brigando junto com as distribuidoras para poder incentivar mais o consumo de etanol.

 

Falando sobre transição energética, esse tema representa uma oportunidade para o setor sucroenergético, considerando o papel da cana como fonte de energia limpa, base para o hidrogênio verde e para a bioeletricidade? Esse pode ser um novo caminho de crescimento para os produtores do Rio Grande do Norte nos próximos anos?

 

É o futuro. A transição energética é a chave do sucesso para o produtor de cana. A gente tem que fazer essa transição energética, seja nos carros movidos a etanol, seja no biometano, que é um combustível que está em crescimento; também na venda de matéria-prima como o bagaço de cana-de-açúcar para outras fontes de rendas. Pode e com certeza é o futuro para os produtores também no RN.

 

 

 

 

Tribuna do Norte

 

 

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes