Amostras dos vírus H1N1 e H3N2, causadores da gripe tipo A, estavam entre o material biológico furtado do Laboratório de Virologia da Unicamp, conforme apuração do g1. Os micro-organismos foram transportados sem autorização para outros laboratórios da universidade e ficaram desaparecidos por 40 dias.

Uma pesquisadora foi presa e responderá em liberdade por furto, por colocar a saúde das pessoas em risco e pelo transporte sem autorização de material geneticamente modificado. De acordo com a Polícia Federal (PF), o marido dela, Michael Edward Miller, também é investigado.

🔎Os vírus Influenza H1N1 e H3N2 são aqueles normalmente associados a gripe sazonal, que acomete humanos todos os anos, geralmente durante o inverno. Segundo professor José Luiz Modena, da Unicamp, eles são classificados como agentes nível 2 de biossegurança, já que conferem risco moderado/brando para os trabalhadores e ambiente.

A Polícia Federal nega que tenha havido contaminação externa nesse caso e garante que todas as amostras foram recuperadas e os vírus ficaram apenas dentro da universidade.

g1 esteve na Unicamp na tarde desta quarta-feira (25) e apurou, ainda, que, além dos subtipos do Influenza, havia outros vírus – humanos e suínos – no conteúdo levado. Todas as amostras foram encaminhadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária, que mantém em sigilo a informação sobre os tipos virais envolvidos no caso.

O Laboratório de Virologia da Unicamp é uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), que exige protocolos rigorosos e é, atualmente, o nível mais alto possível para se estudar agentes infecciosos (como vírus e bactérias) em laboratórios no Brasil.

🔎 Classe de risco 3 é aquela em que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. São agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento. Exemplos: Bacillus anthracis e vírus da imunodeficiência humana (HIV). O Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível 4 (máximo) de biossegurança está em construção em Campinas, com previsão de ficar pronto em 2027.

O material pertencia ao laboratório do Instituto de Biologia e, após 40 dias desaparecido, foi recuperado pela PF na Faculdade de Engenharia de Alimentos, a aproximadamente 350 metros de distância do local de origem.

Cronologia do caso

 

  • 13 de fevereiro: amostras de vírus somem do laboratório de virologia do Instituto de Biologia da Unicamp
  • 23 de março: laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp são interditados pela Polícia Federal para cumprimento de mandados de busca
  • 23 de março: PF encontra parte do material desaparecido nos laboratórios interditados e a pesquisadora é presa em flagrante
  • 24 de março: PF localiza o restante das amostras em outro laboratório do Instituto de Biologia. A suspeita não tinha autorização de acesso a nenhum dos locais onde as amostras estavam, mas conseguia entrar com a ajuda e consentimentos de outros pesquisadores.
  • 24 de março: Justiça concede liberdade a Soledad e decisão menciona que amostras eram de vírus

 

Infográfico mostra local de onde amostras de material biológico foram retiradas na Unicamp, e por quais crimes a professora Soledad Palameta Miller vai responder na Justiça — Foto: Arte g1

Infográfico mostra local de onde amostras de material biológico foram retiradas na Unicamp, e por quais crimes a professora Soledad Palameta Miller vai responder na Justiça — Foto: Arte g1

Investigação e prisão de pesquisadora

A investigação começou quando uma pesquisadora autorizada do Laboratório de Virologia do Instituto de Biologia notou, na manhã de 13 de fevereiro de 2026, o desaparecimento de caixas com amostras virais.

No dia 23 de março, a PF cumpriu mandados em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos. Todos os laboratórios da faculdade ficaram temporariamente interditados durante a ação.

A Polícia Federal localizou as amostras espalhadas em três locais diferentes:

  • Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado.
  • Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave.
  • Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada em uma lixeira.

 

Laboratório de Virologia da Unicamp, unidade com nível de biossegurança 3, o mais alto disponível no Brasil, e de onde amostras biológicas foram furtadas e levadas por uma pesquisadora da Faculdade de Engenharia de Alimentos — Foto: Estevão Mamédio/g1

Laboratório de Virologia da Unicamp, unidade com nível de biossegurança 3, o mais alto disponível no Brasil, e de onde amostras biológicas foram furtadas e levadas por uma pesquisadora da Faculdade de Engenharia de Alimentos — Foto: Estevão Mamédio/g1

A professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade aos quais a professora conseguiu acesso com o consentimento de outros pesquisadores.

A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava os laboratórios do Instituto de Biologia por não possuir estrutura própria.

Furto de vírus na Unicamp: PF diz que também investiga marido de pesquisadora e descarta risco à população — Foto: Arquivo pessoal

Furto de vírus na Unicamp: PF diz que também investiga marido de pesquisadora e descarta risco à população — Foto: Arquivo pessoal

A Polícia Federal (PF) informou nesta quarta-feira (25) que o marido da professora, Michael Edward Miller, também é investigado por suspeita de envolvimento no furto de amostras de vírus de um laboratório do Instituto de Biologia da Unicamp.

Michael Miller é médico veterinário e faz doutorado em Genética e Biologia Molecular na universidade. A corporação não informou quais são as suspeitas sobre ele. O g1 tenta localizar a defesa dele.

Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp — Foto: Estevão Mamédio/g1

Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp — Foto: Estevão Mamédio/g1

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