Quem dirige pelas ruas de Natal já deve ter se deparado com situações em que, mesmo com o sinal aberto, motoristas permanecem enfileirados, avançam sobre a área de interseção e acabam bloqueando o fluxo contrário. O resultado são retenções sucessivas e perda de tempo no trânsito. Um dos principais fatores é o modelo atual de semáforos com tempos fixos, que não acompanha a variação da demanda de veículos ao longo do dia. Esse cenário motivou a elaboração de um projeto que promete mudar a dinâmica do tráfego na capital potiguar: a implantação de semáforos inteligentes.

Natal foi contemplada pelo Governo Federal, dentro do Novo PAC – Mobilidade Urbana Sustentável, com um financiamento de R$ 30,5 milhões para a implantação desse modelo, voltado à modernização da rede e à melhoria da fluidez, sobretudo nos corredores de transporte público.

De acordo com a secretária de Mobilidade Urbana de Natal (STTU), Jódia Melo, a última grande modernização semafórica da cidade ocorreu em 2009, o que torna o sistema atual defasado diante da realidade do trânsito. “O nosso objetivo maior é dar fluidez, em especial ao transporte público, porque ele vai priorizar o transporte público quando fizer a adequação dos tempos”, explica.

A proposta já foi apresentada no Conselho Municipal de Transporte e Mobilidade Urbana (CMTMU) e prevê a modernização de todo o parque semafórico. Ao todo, 197 cruzamentos serão contemplados, sendo 138 com tecnologia adaptativa capaz de ajustar automaticamente o tempo dos sinais conforme o fluxo. Outros 59 estarão integrados à central de controle, permitindo ajustes remotos em tempo real.

Além disso, o projeto inclui 483 pontos de coleta de dados por videodetecção, que irão monitorar o volume de tráfego, e a instalação de 398 botoeiras sonoras para pedestres, ampliando a acessibilidade e a segurança nas travessias.

A expectativa da STTU é de impacto direto no tempo de deslocamento. “No horário de pico, a gente pode ter uma redução de cerca de 20% no tempo de viagem”, estima Jódia Melo

De acordo com a secretária, os novos equipamentos terão câmeras e sensores capazes de “ler” o trânsito em tempo real e adaptar o funcionamento dos sinais automaticamente. “Hoje o tempo do semáforo é fixo, independentemente da quantidade de carros. Às vezes enche tanto que até o cruzamento fica bloqueado. O sinal inteligente vai conseguir perceber isso sozinho, sem você ter que reprogramar”, detalha.

A tecnologia permitirá ainda a criação de uma espécie de “onda verde”, liberando sequencialmente os sinais em vias com maior fluxo. Em situações específicas, como a aproximação de ambulâncias, o sistema poderá priorizar a passagem. “Ao observar a ambulância, ele vai ficar aberto até a ambulância passar. A gente consegue dar esse comando para o sistema que opera a inteligência do semáforo”, afirma a secretária.

Segundo a secretária Jódia Melo, 138 semáforos passarão a contar com tecnologia para automatizar os sinais de trânsito | Foto: Arquivo TN

Para quem enfrenta o trânsito diariamente, a falta de sincronização dos semáforos é um problema evidente. O motorista Isaías Morais relata desequilíbrio nos tempos dos sinais em vias importantes da cidade. “O principal é a questão de tempo. Tem locais que até têm um tempo proporcional, mas em outros demoram muito a abrir e fecham muito rápido em relação aos outros sentidos”, afirma. Para ele, a mudança pode trazer impacto direto: “Acredito que um semáforo inteligente resolveria isso sim.”

Já o motorista Thalys Ferreira chama atenção para pontos críticos, como acessos a pontes. “A questão do tempo no semáforo deveria ser específica de cada região. Nas pontes e acessos, qualquer incidente já congestiona, principalmente por causa de acidentes com motos”, relata.

Controle remoto

O secretário adjunto de Trânsito, Walter Pedro, destaca que a principal mudança será a forma de operação do sistema. Hoje, qualquer ajuste exige deslocamento de equipes até o local. “Hoje é manual. A gente precisa ir no semáforo para ajustar. Com o novo sistema, isso poderá ser feito da central, de um tablet ou celular”, explica. Ele acrescenta que a central semafórica integrada também permitirá respostas mais rápidas a ocorrências no trânsito. “Se houver uma retenção, a gente consegue ajustar remotamente para dar mais fluidez.”

Para os pedestres, o projeto prevê botoeiras inteligentes, com recursos de acessibilidade. “A botoeira vai conseguir identificar, por exemplo, uma pessoa com mobilidade reduzida e dar mais tempo para a travessia”, afirma.

Outro ponto é a instalação de sistemas de energia de reserva. “Teremos cruzamentos com nobreak, para que os sinais não parem em caso de falta de energia”, completa.

Projeto está em fase final para contratação

Segundo a Caixa Econômica Federal, responsável pela operação de crédito com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o projeto já foi habilitado e selecionado pelo Ministério das Cidades e teve sua validação técnica concluída. “Atualmente, o projeto encontra-se na fase de tramitação para contratação da operação de crédito, que envolve as análises internas da Caixa e, paralelamente, o envio pelo município do Pedido de Verificação de Limites (PVL) à Secretaria do Tesouro Nacional, conforme previsto no Manual de Instrução de Pleitos daquela Secretaria”, informou a Caixa Econômica Federal.

Segundo o banco, o andamento do processo está dentro da normalidade, considerando-se tratar de uma operação de crédito com ente público, lastreada em recursos do FGTS. “A expectativa é de que a contratação seja concluída no primeiro quadrimestre de 2026. A liberação dos recursos ocorrerá de forma gradual, conforme o cronograma físico-financeiro e a execução do projeto”, esclareceu.

A secretária da STTU, Jódia Melo, afirma que, paralelamente à tramitação na Caixa, a Prefeitura já realizou o processo licitatório para contratação de uma empresa escolhida. “Ainda não assinamos contrato com a empresa vencedora porque só pode ocorrer após formalizar o convênio com a Caixa, para a secretaria e o fornecedor firmarem o contrato.”

Proposta também avança na Câmara Municipal

Paralelamente à iniciativa do Executivo, a modernização do sistema semafórico também vem sendo discutida no Legislativo. Um projeto de lei de autoria do vereador Léo Souza (União) propõe a criação da Política de Semaforia Inteligente em Natal, com diretrizes semelhantes às que já estão sendo implementadas pela Prefeitura.

O texto estabelece que o município deverá substituir gradualmente os controladores convencionais por equipamentos inteligentes, capazes de identificar o fluxo de veículos em tempo real, por meio de sensores como câmeras e laços indutivos. A proposta prevê que essa transição comece por eixos viários estratégicos, como as avenidas Engenheiro Roberto Freire, Hermes da Fonseca/Salgado Filho, Prudente de Morais, Tomaz Landim e a Ponte Newton Navarro, corredores que concentram grande volume de tráfego na capital.

Entre os mecanismos previstos está o chamado “modo autônomo”, no qual o próprio sistema ajusta os tempos de abertura e fechamento dos sinais de acordo com a demanda, evitando situações comuns no modelo atual, como motoristas parados em um sinal vermelho mesmo quando não há fluxo na via transversal.

Outro ponto central do projeto é a chamada “onda verde dinâmica”, que sincroniza semáforos em sequência para permitir que veículos trafeguem com maior fluidez em velocidades constantes, reduzindo paradas desnecessárias. A proposta também inclui a “prioridade seletiva”, que permite a abertura antecipada do sinal para ônibus em atraso e veículos de emergência, como ambulâncias, viaturas policiais e do Corpo de Bombeiros.

Na justificativa, o vereador argumenta que o sistema atual, baseado em tempos fixos, “não reflete a dinâmica imprevisível do trânsito moderno” e contribui para congestionamentos e desperdício de tempo. Ele também destaca impactos ambientais e econômicos, ao apontar que a redução do chamado efeito “anda e para” pode diminuir a emissão de poluentes e o consumo de combustível. Outro aspecto previsto é a integração dos dados coletados pelos sensores a plataformas digitais do município, como o aplicativo “Natal na Mão”, permitindo que a população acompanhe, em tempo real, estimativas de deslocamento com base nas condições do trânsito.

Tribuna do Norte
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