No ano de 2024, foram emitidas 471.649 concessões de benefícios previdenciários associados à saúde mental, um aumento de 66,45% em relação a 2023, quando esse número foi de 283.345. O aumento no número registrado pelo Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab) chama a atenção para a necessidade do debate em torno da saúde mental no ambiente de trabalho e os cuidados necessários para a sua manutenção, em um cenário que a psicóloga e especialista em saúde emocional no trabalho, Alda Karoline da Silva, destaca como uma das maiores crises de saúde mental da história.

“Nós vivemos essa crise em termos de estilo de vida. Hoje em dia há muitos questionamentos sobre sentido, significado, carreira, e são questões que impactam nosso projeto de viver, principalmente se levarmos em consideração que passamos um terço de nossas vidas, no mínimo, dedicados ao nosso trabalho. E isso nos motiva a repensar esses lugares e as nossas prioridades, e o papel central que os nossos trabalhos ocupam em nossas vidas”, explica Alda, sobre o princípio do adoecimento em questão.

Diante do aumento do número de casos, a profissional destaca se tratar de um problema não apenas social, mas também econômico, uma vez que o impacto dos afastamentos se torna um problema financeiro tanto para o profissional como também para a empresa.

O relatório do SmartLab é feita com base em dados da Previdência Social, e aponta que em 2024 aproximadamente 30% das causas de afastamento do trabalho, associadas à saúde mental, estão incluídas à classificação de transtornos ansiosos, seguidos por episódios depressivos, 24%, e transtornos depressivos recorrentes e transtornos afetivos bipolares, ambos com 11%.

Quando analisados com relação à ocupação, o mesmo relatório de 2024 do SmartLab aponta que mais de 99 mil dos afastamentos aconteceram entre varejistas, enquanto mais de 57 mil aconteceram entre pessoas que trabalham como faxineiros, e mais de 17 mil se deram entre auxiliares de escritório.

Com relação ao aumento de 66% no número de casos, a psicóloga destaca que um dos fatores que influenciam esse crescimento é a redução das subnotificações. Após o período da pandemia do Covid-19, as mudanças organizacionais nas empresas trouxeram novos impactos à saúde mental dos trabalhadores, que, em meio à crise sanitária, muitas vezes não notificaram os problemas aos órgãos competentes, gerando um período de subnotificação.

No entanto, Alda enfatiza que há um fator mais determinante para justificar o aumento no número de casos: o reconhecimento da síndrome do Burnout enquanto doença ocupacional.

Síndrome do Burnout

A síndrome do Burnout foi incorporada à Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2022, fator que a psicóloga Alda destaca como possível razão para aumento das notificações do número de casos de afastamentos por questões relacionadas à saúde mental.

O Burnout é uma síndrome relacionada ao esgotamento físico e emocional provocado pelo trabalho, ela é caracterizada por sentimentos de exaustão intensa, perda de motivação, distanciamento afetivo das atividades e queda de desempenho profissional. O quadro acomete, principalmente, profissionais que vivem em ambientes de alta pressão, com excesso de demandas, falta de reconhecimento, lideranças autoritárias ou ausência de equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

“A síndrome do Burnout é característica do ambiente de trabalho, reconhecida como uma doença ocupacional, e esse reconhecimento é um marco no campo da saúde e segurança do trabalho, que nos auxilia a entender como esse dado vem sendo registrado. Porque ele já existia, talvez há muito tempo, porém de forma velada. Por isso que nós costumamos dizer que os adoecimentos relacionados ao trabalho são sim uma pandemia, porém oculta”, explica Alda.

Apesar da importância do reconhecimento da síndrome enquanto doença ocupacional relacionada ao trabalho, a psicóloga conta que ainda não é possível ter acesso a dados precisos quanto aos números de casos. “Por ainda ser algo recente, e também não tão bem debatidos nos espaços empresariais, os casos de síndrome do Burnout ainda permanecem subnotificados”, relata.

O estado de estresse crônico imposto pela síndrome acende o alerta às empresas sobre a importância de cuidar de seus profissionais, ao que a psicóloga adverte ser papel das instituições o manejo responsável de seus funcionários, para que possam existir condições adequadas nos ambientes de trabalho. “Existem modelos e ambientes de trabalho que fazem as pessoas adoecerem, então o reconhecimento da síndrome e os seus fatores de influência é um marco muito importante para a sociedade”, acrescenta.

“As empresas precisarão se adaptar, pois os melhores talentos escolherão os melhores lugares para trabalhar”, diz a psicóloga Alda Karoline | Foto: Cedida

O ambiente de trabalho adequado

Para a construção de ambiente de trabalho adequado para os profissionais, a psicóloga destaca a necessidade do desenvolvimento de programas de prevenção dentro das empresas, bem como espaços de trabalho saudáveis. “Mas é preciso ter a compreensão de que esses espaços saudáveis não têm nada a ver com festas de aniversário ou datas comemorativas, são ações reais e práticas atrativas para esses trabalhadores se sentirem legítimos dentro das empresas”, diz.

Práticas de pertencimento, de reconhecimento, e lideranças humanizadas, são características que a psicóloga destaca como fundamentais para condições saudáveis nos ambientes de trabalho. “Uma liderança humanizada e preparada, em que a equipe confia para tratar vulnerabilidades, e que é capaz de tratar assuntos com acolhimento e cuidado”, elenca Alda.

Entre os fatores corporativos que podem contribuir para a exaustão dos funcionários está a ausência de medidas de proteção ao trabalhador, ao que Alda adverte serem necessárias as diversas formas de organização que a empresa e seus funcionários precisam. “É preciso o desenvolvimento da coletividade dos espaços da empresa. A partir das divisões dos espaços, relações, hierarquias, tarefas e jornadas”, explica.

A psicóloga explica que atualmente algumas empresas já vêm criando um cargo chamado analista de saúde mental — sinalizando a transformação cultural dentro do mercado de trabalho —, uma vez que ela afirma não caber mais ao analista de recursos humanos a execução de certas tarefas ligadas à saúde mental, que devem ser realizadas por profissionais adequados.

“O setor de Recursos Humanos hoje é um setor que é um agregador desse lugar de criação de uma cultura de bem-estar, mas ele não é o setor que vai ser o único responsável, ele é o setor que é mobilizador dos outros setores, trazendo braços externos para colaborar e capacitar essas pessoas no campo da saúde”, afirma.

Formas de prevenção

Para que o profissional se adapte de forma saudável ao ambiente de trabalho, Alda reforça que é necessário compreender as condições oferecidas pela empresa e avaliar se ela assume a responsabilidade pelo cuidado. “Oferecer corridas ou plataformas de treino favorece a saúde física, mas isso não garante que o funcionário terá condições de lidar com ambientes de alta pressão apenas por estar fisicamente bem”, explica.

Para se encontrarem em bons ambientes de trabalho, a psicóloga explica que os profissionais precisam buscar estes locais adequados, buscar empresas que valorizam as boas e saudáveis práticas de trabalho.

“As empresas precisarão se adaptar. Costumo dizer que os melhores talentos escolherão os melhores lugares para trabalhar. Então hoje nós não podemos mais falar sobre estratégias de enfrentamento para sustentar a alta pressão. O mercado, o nosso modelo atual, e a nova geração não estão dispostos a repetir os adoecimentos das gerações anteriores em cenários laborais mais hostis”, destaca.

Alda lembra ainda que a atualização da Norma Regulamentadora 01 (NR01), aliada à Lei de Saúde Mental de 2023 — prevista para entrar em vigor em 2025 —, representa uma mudança no tratamento da saúde psicológica dentro das empresas. Essas mudanças introduzem o mapeamento e gerenciamento dos riscos psicossociais, tornando obrigatória a adoção de medidas preventivas relacionadas ao bem-estar mental dos trabalhadores.

Segundo a psicóloga, esse avanço mostra que saúde mental não pode mais ser vista apenas como um “diferencial” oferecido por grandes empresas, mas sim como uma exigência legal e de sustentabilidade. “As empresas que não fizerem isso não conseguirão se manter por muito tempo no mercado com os bons profissionais. Eles migrarão para onde serão mais acolhidos, onde terão mais segurança emocional, e conseguirão ter o trabalho como fonte de vida e não de adoecimento”, conclui.

Tribuna do Norte

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