O Rio Grande do Norte acumula duas décadas de crescimento econômico modesto, com o PIB avançando em média 1,9% ao ano entre 2002 e 2022, uma das menores taxas do Nordeste. O Estado mantém, há mais de 20 anos, 0,9% de participação no PIB nacional, enquanto vizinhos como Piauí e Maranhão cresceram quase o dobro. A economia potiguar concentra-se majoritariamente em comércio e serviços, setores de menor valor agregado; a indústria e a agropecuária permanecem limitadas.

Especialistas apontam que a ausência de políticas consistentes de inovação, infraestrutura e educação explica a estagnação frente a estados vizinhos como Ceará e Piauí.

O economista Robespierre do O’Procópio, ex-presidente do Conselho Regional de Economia do RN (Corecon-RN), detalha por que o Estado ficou para trás. “O RN cresceu menos que Ceará e Piauí porque ficou preso a atividades que geram pouco efeito em cadeia. No passado, o algodão espalhava renda e investimentos dentro do Estado. O petróleo não criou a mesma rede local de fornecedores e indústria”. Segundo ele, a energia eólica avançou, mas sem a fabricação de componentes no Estado. “Aqui ficam montagem e manutenção, enquanto a fabricação ocorre fora”.

Robespierre destacou limitações em logística e planejamento. “O porto ficou limitado por anos, sem ferrovia; parte da produção usa portos vizinhos. Pouco espaço fiscal, muita despesa com pessoal, deixou pouco investimento para obras, educação técnica e inovação”. Ele criticou ainda projetos interrompidos ou de execução parcial. “Projetos como a ZPE (Zona de Processamento de Exportação) foram cancelados, outros não viram obra, e o RN Sustentável/Governo Cidadão teve impacto abaixo do potencial por entraves de execução e governança”.

O economista propõe soluções complementares às defendidas pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado (Fiern), Roberto Serquiz. “É urgente entregar a dragagem e modernização do Porto de Natal e decidir tecnicamente o novo porto, atrelar energia eólica/offshore a fábricas e P&D, industrializar o que temos — frutas em sucos e polpas, sal em química — e reativar a zona especial de exportação com metas de emprego e exportação”.

Ele acrescentou a importância da educação técnica alinhada aos setores estratégicos. “Expandir ensino médio integral e técnico em logística, mecatrônica, química do sal, automação, TI e manutenção eólica/offshore”.

Robespierre ainda vê potencial em tecnologia e inovação. “O Centro Regional do Nordeste do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe-CRN) e o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) são ativos únicos. Dá para criar um cluster aeroespacial com a Universidade Federal do RN/Instituto Federal do RN e empresas, servindo à eólica/offshore e ao agro. Conectar esse polo ao novo porto e usar compras públicas para puxar fornecedores locais pode transformar ativos em crescimento sustentado”.

Ele concluiu: “O RN precisa resolver logística, ancorar indústria — energia, agroquímica e aeroespacial — formar gente para esses setores e dar estabilidade aos projetos. Assim, transforma seus ativos em crescimento sustentado, sem ficar atrás dos vizinhos”.

Obstáculos industriais identificados pela Fiern

Para Roberto Serquiz, os obstáculos para o desenvolvimento industrial do RN são claros. “As pesquisas do Observatório da Indústria MaisRN apontam que o desenvolvimento se perfaz a partir de três pilares: Estado eficiente, investimento em infraestrutura logística e educação de qualidade. Nos últimos 20 anos esses três pilares evoluíram muito pouco”.

Ele destacou ainda a perda de competitividade. “O Rio Grande do Norte se tornou o estado menos competitivo do Nordeste pela gradual perda do equilíbrio fiscal, pela crise da previdência e pelo comprometimento das receitas com folha de pessoal”.

Serquiz detalhou problemas estruturais em logística e infraestrutura. “Verificou-se perda da qualidade dos nossos ativos como o Porto de Natal, estradas estaduais e rodovias federais de baixa qualidade e não duplicadas; a ausência do RN no projeto da Transnordestina e perda do modal ferroviário; e, por fim, a construção do aeroporto internacional de São Gonçalo desconectados dos demais modais estratégicos”.

Na área educacional, a situação também compromete a competitividade do Estado. “O RN alcançou a pior posição nacionalmente no Ideb e a taxa de analfabetismo chegou a 13,8%, quase o dobro da média do Brasil, conforme o Censo de 2022”. Segundo ele, a combinação desses fatores contribuiu para a estagnação econômica. “A junção desses fatores nos últimos 20 anos fez com que o RN estagnasse em competitividade frente a estados vizinhos que adotaram agendas positivas e colocaram o ambiente de negócios como fator estratégico de suas economias”.

Sobre a concentração do PIB em comércio e serviços, Serquiz explicou que isso impacta a indústria local. “O crescimento da indústria é condição sine qua non do fortalecimento da economia, visto que o setor paga salários mais altos, exige maior nível de formação e tem um alto grau de implementação de tecnologia. A indústria iniciou seu processo de desindustrialização a partir de 2012, o que representou fuga de setores para estados vizinhos e a retenção apenas das atividades vinculadas a recursos naturais”.

Mudanças estruturais e papel do setor privado

Para acelerar a diversificação econômica, o presidente da Fiern defendeu mudanças estruturais. “O RN precisa urgentemente rever a agenda de investimentos, estruturando órgãos reguladores que são a porta de entrada dos investimentos privados e adotar um novo modelo de gestão educacional capaz de preparar as atuais gerações para o futuro, seja na qualificação do corpo docente, seja pela adoção de critérios objetivos para a gestão educacional”.

O papel da Fiern, segundo Serquiz, é estratégico. “A Fiern serve a sociedade potiguar através do fortalecimento da indústria, gerando empregos melhores, agregando tecnologia, criando pontes com universidades e pesquisadores, e contribuindo para a saúde fiscal do estado”.

Ele citou ações concretas do setor privado. “Colaboramos com a revisão do Proadi (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional), criação do Proedi (Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial do RN), desenho da Política de Parcerias Público-Privadas, nova Lei do Gás, proposição da Lei de Transição Tributária, do RN +Moradia e, recentemente, trabalho sobre a Política Industrial Potiguar envolvendo datacenters e outros setores portadores do futuro”.

Em relação aos exemplos de outros estados, Serquiz apontou que Ceará e Piauí mostram o caminho. “Os estados vizinhos tornaram a competitividade de seus ambientes de negócios prioridade. O Ceará fortaleceu seu sistema educacional e seus parques industriais; o Piauí se tornou referência em PPPs, inclusive internacionalmente”.

Para o RN, ele ressaltou a necessidade de reforma administrativa e gestão fiscal rigorosa. “Será necessário repensar a pactuação entre Poderes, monitorar o serviço público através de resultados objetivos e mensuráveis, e buscar a recuperação da capacidade de investimento do estado, com medidas de contenção de despesas, como fizeram Alagoas, Ceará, Pernambuco e Paraíba”.

Agora RN

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes