Pelas rodovias dos Estados Unidos, um caminhão cinza, apelidado de chumbadão, corta a paisagem e transporta mais do que cargas. Dentro da cabine, ele leva dois jovens paranaenses que fazem da boleia o próprio lar — e registram tudo nas redes sociais, onde são acompanhados por milhares de amantes da vida nas estradas.

O modelo do chumbadão é consideravelmente maior que os caminhões que podem circular no Brasil e tem espaço suficiente para guardar na cabine duas camas, micro-ondas, airfryer, mini fogão, mini geladeira e os pertences dos caminhoneiros Victoria Guerreiro Silva, de 23 anos, e o marido, André Luiz Babireski Spak, de 25.

Victoria nasceu nos Estados Unidos, mas foi criada em Paranavaí, no noroeste do Paraná. Aos 17 anos, voltou sozinha para Tampa, na Flórida. André nasceu em Carambeí, nos Campos Gerais, e aos 18 anos se mudou para os Estados Unidos em busca de estudo e trabalho.

Os dois se conheceram na Flórida, em janeiro de 2020. Em maio do mesmo ano, se casaram. Logo no primeiro ano de casados, decidiram buscar um trabalho em que pudessem viajar e ganhar dinheiro ao mesmo tempo.

Depois de atravessar o país em uma viagem de carro, André sugeriu à esposa de trabalhassem no ramo de transporte.

“A minha família sempre mexeu com com caminhão no Brasil. Aí eu falei: ‘Vamos tentar?’ A gente não queria dar um pulo muito grande, ter um caminhão. Aqui tem a opção começar com as caminhonetes […] É uma profissão muito boa, uma profissão de muita honrada, que muitas pessoas não valorizam”, relata André.

Com uma caminhonete, começaram a transportar carros por rotas menores. No começo, o casal não tinha licença de caminhão, por isso, tentava manter o peso das cargas abaixo do permitido. Porém, constantemente, eles precisavam lidar com abordagens policiais.

Trabalhando com a caminhonete, eles precisavam manter o aluguel de uma casa, uma vez que o veículo não tinha as mesmas comodidades que oferece um caminhão. Foi observando essas questões que os dois decidiram dar um passo maior: compraram um caminhão, no qual poderiam trabalhar e viver, e abriram a própria empresa de transporte.

No processo de descoberta de como ser caminhoneiro, os dois precisaram aprender a lidar com documentações específicas, mecânica, seguro e outros investimentos. Ambos também tiveram que tirar habilitação específica para dirigirem veículos pesados.

“Eu nem podia tirar carteira de caminhão, só com 21 anos. Comecei do zero mesmo, nunca tinha engatado nem um trailer”, lembra Victoria.

Victoria dentro do caminhão | Foto: Arquivo pessoal
Victoria dentro do caminhão | Foto: Arquivo pessoal

O dia a dia na estrada

Desde 2022, a vida de André e Victoria é dentro do chumbadão.

Com um cotidiano intenso, os caminhoneiros revezam o volante. Enquanto um dirige, o outro dorme. A maioria das refeições também são dentro do próprio caminhão. Para banho e uso de banheiro, os dois usam postos de combustíveis e conveniências.

“Quando a gente saiu da caminhonete e veio pro caminhão, parecia que estávamos saindo de um buraquinho e indo pra uma mansão. Aqui as as temperatura são muito extremas, é muito calor ou muito frio, ou muito vento ou muita chuva. Então aqui dentro do caminhão é bem espaçoso, dá pra fazer tudo”, explicou Victoria.

André explica que o casal é proprietário apenas do cavalo mecânico, ou “cavalinho”, parte dianteira do caminhão articulado que reúne a cabine, o motor e as rodas de tração. A parte traseira, chamada de carreta, pertence a uma empresa de sorvetes com a qual o casal tem um acordo de transporte.

O trabalho consiste em levar carretas carregadas com sorvete e, na volta, retornar com elas vazias até a empresa.

Victoria e André trabalham como caminhoneiros nos Estados Unidos | Foto: Arquivo pessoal
Victoria e André trabalham como caminhoneiros nos Estados Unidos | Foto: Arquivo pessoal

O modelo do cavalo mecânico de André e Victoria é conhecido entre os caminhoneiros como “bicudo”. Ele é maior do que os veículos de carga permitidos no Brasil.

Nos Estados Unidos, as dimensões permitidas para os caminhões circularem podem variar de estado para estado, que possuem legislação própria. Contudo, em geral, a lei norte-americana considera a dimensão total do caminhão apenas a carreta, sem contar o cavalo mecânico.

Além disso, a própria infraestrutura norte-americana, com rodovias mais largas, permite o uso de caminhões com cabines amplas.

No Brasil, pelo contrário, segundo a Resolução nº882/2021 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), as dimensões máximas permitidas para caminhões que transitam em vias públicas é composta pelo conjunto cavalo mecânico e carreta. A largura máxima é de 2,60 metros.

O limite de comprimento, segundo a resolução, depende da configuração do veículo:

  • Veículo isolado (sem reboque ou semirreboque): 14 metros
  • Veículo com reboque (combinação de veículos): 19,80 metros
  • Combinação de veículos articulados com duas ou mais unidades (como bitrens, rodotrens etc.), com autorização especial de trânsito (AET): 30 metros

Acima de 19,80 m, o veículo precisa de Autorização Especial de Trânsito (AET) do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) ou órgão rodoviário correspondente.

Victoria e André dirigem o caminhão nos Estados Unidos | Foto: Redes sociais
Victoria e André dirigem o caminhão nos Estados Unidos | Foto: Redes sociais

Saudade de casa

Apesar de amar a vida na estrada, os planos de Victoria e André, a longo prazo, são outros. Eles sonham com outras formas de continuar viajando, talvez com mais equilíbrio e conforto.

Ao mesmo tempo, planejam também fazer uma casa contêiner para receber amigos e familiares, só ainda não chegaram em um acordo de onde escolher uma cidade entre tantos lugares dos Estados Unidos.

“Queremos um canto nosso pra chamar de lar. Hoje em dia a gente não consegue chegar no acordo de onde a gente quer morar porque a gente gosta de tantos estados… E o que eu concordo, ele não concorda. Vamos decidir isso mais pra frente, quando a gente tiver tipo o plano de ter filhos e tudo mais”, brincou Victoria.

g1

Neuropsicopedagoga Janaina Fernandes