Gabriela Félix estava no final de sua graduação em Moda na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), uma das maiores universidades do segmento no país, quando decidiu compartilhar nas redes sociais um momento desafiador para todos os estudantes: a concepção e execução do seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso).
Para se formar, ela precisou apresentar uma coleção. Só que o que chamou a atenção dos seguidores foi quando ela revelou que gastou R$ 55 mil para confeccionar a coleção ‘Desbloqueio Criativo’, apresentada para a banca da instituição.
Nascida no interior do Rio Grande do Norte e criada no Maranhão, Félix se mudou sozinha para São Paulo, para estudar e ter mais oportunidades de trabalho na área. Ela conta que seus pais bancaram todas as suas despesas. Empresários, eles incentivaram a ida dela para a capital paulista e arcaram com os custos, incluindo aluguel e alimentação. Segundo a jovem, 90% do custo do TCC foi arcado por ela, que já fazia trabalhos como influenciadora.
“A maior parte do trabalho fui eu que paguei, guardando o dinheiro que recebia nas entregas”, explica, em entrevista para Marie Claire.
Um desbloqueio financeiro
A estudante foi ambiciosa porque também pretendia inscrever o projeto em um concurso promovido pela faculdade. Para participar do processo seletivo, ela apresentou os croquis das peças. Após uma aprovação prévia, recebeu um incentivo de R$ 4 mil da FAAP para financiar sua coleção. Nessa “primeira etapa”, acabou gastando R$ 36 mil nos processos de concepção e compra de materiais.
O resto do dinheiro foi gasto para transformar o desfile em um projeto acadêmico, incluindo o ensaio de fotos, que foi o segundo item mais caro do projeto. “A maior parte do valor foi em mão de obra. Eram looks extravagantes, difíceis de serem executados. Eu não estava apta para fazer o que desenhei, mas estava muito focada em participar do concurso. O shooting também custou muito, porque teve o cachê de filmagem, edição, cenografia e das modelos.”
A coleção contou com 24 looks desenhados, sendo quatro deles executados. “Usei materiais volumosos, como tricô, e apostei em uma contradição entre cor e volume. Quis trazer o amarelo, que é a cor da criatividade na simbologia cromática, com cinza e preto em contraponto, remetendo ao ensino tradicional”, detalha.
Gabriela Félix conta que as roupas exigiam um investimento elevado. “As peças tinham silhuetas mais rígidas, a primeira era como uma gaiola de metal humana, enorme. Também quis usar tricô com malha, um tecido bem pouco flexível, e pontos que lembrassem correntes. O desfile abria com um look com bolas amarelas em uma gaiola de metal e elas iam se sobressaindo até o final, como botões de rosa desabrochando, de modo a contar uma história”, enfatiza.
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Ela entende, no entanto, que poderia ter economizado. Mas como, ao todo, o projeto levou cerca de um ano e meio para ser finalizado, o dinheiro foi sendo gasto ao longo do processo, sem que ela tivesse noção de quanto ficaria o orçamento total no final.
“Na minha faculdade, não é tão anormal que gastem tanto. São pessoas com boas condições financeiras, mas sei que dei uma boa extrapolada. Dava para ter feito um projeto tão bom quanto com menos dinheiro. Foi falta de organização mesmo. O gasto foi tão aos poucos que nem fui notando”.
Consciência de classe
O caso viralizou nas redes sociais, gerando muitas críticas à ela. Félix, ainda afirma que essas palavras duras não lhe afetaram e assume seu lugar de privilégio. “Sei que tenho muitos [privilégios]. Gastei porque tenho meus pais ajudando em partes muito importantes, se não, não teria como. Mas reconheço que, de certa forma, foi um investimento, porque usei [o trabalho] para fazer conteúdos. Tem um ano e meio que falo só sobre a mesma coisa [risos]”.
“Dinheiro é um negócio importante. Não é porque você tem, que deve gastar de forma ‘adoidada’. Se quiser, faça, mas tenha consciência do que está fazendo. Tenho 21 anos agora e comecei a ganhar dinheiro em uma idade muito nova, mas sei que não é a realidade de todo mundo. Quanto às críticas, lembro das condições da minha realidade. Mas o dinheiro é meu, o que as pessoas podem falar sobre?”
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Um futuro na moda
Ao contrário de grifes nacionais festejadas como Aluf e Misci, que se originaram a partir de trabalhos de conclusão de curso, Gabriela Félix não pretende fazer com que a coleção “Desbloqueio Criativo” se torne um empreendimento. Pelo menos, não agora. Já contratada para um estágio em uma revista de moda, ela está animada com a carreira de influenciadora, que ganhou nova vida após o “viral”.
“Pretendo continuar na moda, principalmente com as minhas redes. Tenho planos de fazer uma pós-graduação fora do país, mas não quero criar uma marca. Tem muitas marcas onde posso contribuir ainda, não tenho pressa. Meu conhecimento sobre moda não veio desde sempre e não acho que só o que adquiri na faculdade seja suficiente para contribuir para a moda nacional — ou até internacional. Quero ainda trabalhar como estilista e explorar outras áreas, como modelista, figurinista… acho legal”.
Revista Marie Claire

