Cláudio Oliveira
Repórter

Comemorando seus 60 anos de idade e 30 anos no Brasil, o chefe e apresentador franco-brasileiro Erick Jacquin retornou a Natal nesta sexta-feira (22) e sábado (23), numa turnê especial na qual promove jantares comemorativos pelas datas. O chefe, que trouxe ao Brasil a sobremesa Petit Gâteau, recebeu a TRIBUNA DO NORTE no restaurante La Brasserie de La Mer, cujo cardápio leva sua assinatura a convite da família Gosson, desde que foi inaugurado há 13 anos. O jantar se repete em outras cidades que Jacquin atua e conta com um menu degustação de seis etapas, no estilo confiance, em que o comensal fica nas mãos do Chef e só descobre o que vai degustar quando o prato chega à mesa. Em Natal, o apresentador dos programas televisivos Master Chef, Minha Receita e Pesadelo na Cozinha visitou ainda a Casa Durval Paiva de apoio a criança com câncer e falou sobre sua trajetória, a relação com Natal (onde já recebeu título de cidadania) e sobre as dificuldades que enfrentou para chegar onde está. Sobre negócios, diz que não se vê como empresário e que soube aproveitar as oportunidades que lhe foram oferecidas, tanto que chegou a falir e conseguiu se reerguer. Agora, a expectativa é expandir os negócios ainda neste ano.

O que motivou o senhor a promover esse evento no qual percorrerá algumas cidades do País?
Esse é um ano de minha vida importante porque estou completando 30 anos de Brasil e 60 anos de vida, ou seja, metade da minha vida foi no Brasil e a outra metade na França. Comecei a trabalhar jovem, faz 45 anos de profissão e grande parte dessa vida aconteceu no Brasil, seja profissional, sentimental, família. Meus três filhos nasceram aqui. Então decidi comemorar essa fase da minha vida. Faz 30 anos que eu trouxe o Petit Gâteau para o Brasil. Então pensei, vamos dar uma volta pelo Brasil, passando pelos lugares que mais gosto que fazem parte dessa história.

Nessa trajetória de 30 anos, qual a avaliação o senhor faz da contribuição que trouxe para a culinária brasileira?
É muito pretensioso fazer uma avaliação assim. Eu fiz o que sei fazer, o que aprendi a fazer, porque as pessoas que comem no meu restaurante, eu quero que elas tenham a sensação de que estão comendo em Paris, ou qualquer lugar da França, sem pagar passagem até lá. Mas se tem uma coisa que eu fiz para a gastronomia brasileira, acho que dei motivação a muitos jovens, ensinei muitas técnicas que não conheciam antes, porque a obrigação do homem é repassar para os outros o que ele sabe. É a chamada continuidade do ser-humano. Então fiz e continuarei fazendo a minha parte nisso, mostrando que a gastronomia francesa é importante no mundo e muito bem feita também no Brasil.

E como aconteceu a aproximação com Natal?
Recebi a proposta para abrir o restaurante aqui. Quando cheguei ainda estava em reforma, mudei a concepção do restaurante. Então virou um pouquinho do restaurante que eu tinha em São Paulo. Escolhi o nome, assinei o cardápio. No início foi um pouco difícil para montar equipe, encontrar os profissionais. O serviço melhorou bastante. Hoje os funcionários estão mais à vontade. Tudo para sentir aqui em Natal um pouquinho da França. É muito bonito, de muito bom gosto, mesmo que tenha gente que chame de cafona, mas é um cafona com bom gosto.

Nesse retorno à Natal, o senhor visitou a Casa Durval Paiva de apoio à criança com Câncer. O que encontrou lá?
É extraordinário o trabalho que eles fazem. Estive com os pais e as crianças que precisam ser fortes para enfrentar a doença. Também pensei nas pessoas que lá trabalham. Que todo dia cuidam das crianças, dão curso, acompanham o tratamento. É uma casa que começou pequena e hoje cresceu e depende de doações. Por isso é importante as pessoas doarem e ajudarem nesse trabalho com qualquer quantia. Gostei muito de visitar esse lugar. Traz a lição de que não podemos desistir e sempre pensar positivo. No momento mais negativo, precisamos ser positivos. É ter perseverança e gratidão.

Como o senhor concilia o papel de “chefe celebridade” com o “empresário”?
Não sou bom empresário, sou cozinheiro, chefe de cozinha. O empresário vem depois. Hoje tenho sete restaurantes em São Paulo, cuido de mais um em João Pessoa e outro aqui em Natal. É um trabalho grande, além de dois programas de televisão, redes sociais, eventos, propagandas…

Então não se vê como empresário?
Sou empresário porque tenho empresa, mas não cuido dessa parte financeira, administrativa… aprendi que cada um faz o que tem o dom para fazer. Houve um momento que tentei abarcar tudo e não deu certo. Hoje tenho parceiro que faz o trabalho dele nos negócios e a parte dele é mais difícil, chata e eu não quero. A minha parte é o lado bom. É o restaurante, o cliente, relações públicas, marketing. Não sei se sou um cozinheiro que vai na televisão, ou um cara da televisão que vai na TV. Sou mais apresentador de televisão, como no Master Chef e Pesadelo na Cozinha, do que empresário. É uma palavra que até me dá medo. Digo que nunca trabalhei na vida, sempre me diverti.

Para chegar aqui, também teve suas dificuldades, certo?
Foram muitas. Nada vem sozinho, mas é preciso saber pegar as oportunidades na hora certa. Eu não deixei passar nada. Nunca abaixo o braço, já passei grandes dificuldades, já quebrei, voltei, dei a volta por cima. Aprendi. Acho que para subir e crescer tem que ter as dificuldades. Quem não teve dificuldades não sabe o que é vida. Se não tem os dois juntos, a vida não é boa. Passei fase difícil, a TV me ajudou muito. Depois disso abri um novo restaurante com um parceiro com quem demorei três anos para a gente firmar a parceria. Um dia vou me aposentar porque ainda quero aproveitar a vida.

E quais os planos para este ano que comemora três décadas de Brasil?
Abrir mais sete ou oito restaurantes nesse ano. No ano que vem, vou abrir mais. Está tudo definido para este ano, em obras. Tenho parceiro, tenho ponto e estamos crescendo de uma forma rápida e violenta, mas bem pensada.

Natal está incluída nessa expansão dos negócios?
Não. Natal já tem o meu restaurante. Quem estiver por aqui e quiser comer da minha comida, vem aqui. Faz 13 anos que estou aqui com esse negócio aberto em Natal. Tenho minha vida muito bem dividida, mas Natal é especial.

O senhor é referência no ramo gastronômico, o que diria para quem chega a essa área?
Para quem quer ser cozinheiro ou cozinheira, pois só depois vem a profissão de chefe, a palavra é ‘responsabilidade’. Vou repetir o que meu pai falava para mim: você vai trabalhar para os outros se divertirem. Se não estiver pronto para isso, se não tiver preparado para trabalhar no sábado e domingo, Natal, dia dos namorados, esqueça a profissão. Não acredite no que a profissão é chefe que tira foto, que sai na revista e no jornal. Tem gente que até tem essa oportunidade, mas considerando a quantidade de chefes que existem, são poucos chefes ‘estrelados’ e muitos mentirosos. Por isso, pense que você vai ser cozinheiro.

Qual mensagem o senhor deixa ao completar 60 anos de idade e de 30 anos de Brasil?
Minha mensagem é de gratidão. O Brasil me deu tanta coisa, que não tenho como retribuir. Trabalhei muito, mas o Brasil me deu a oportunidade de poder trabalhar. O povo brasileiro me abriu os braços. Me naturalizei aqui, me tornei cidadão natalense, cidadão do estado da Paraíba, tenho três filhos que nasceram aqui. Saio na rua e tanta gente me cumprimenta, que ás vezes é cansativo. Mas sou muito grato.

Quem
Erick Jacquin é, atualmente, um dos mais importantes chefs franceses em atividade no Brasil, e ficou conhecido nacionalmente depois de sua participação como jurado no programa de televisão Masterchef Brasil. Vive no Brasil desde 1994, sendo naturalizado brasileiro e reconhecido pela revista Forbes como uma das 25 celebridades mais importantes do país. Atualmente é um dos jurados do reality MasterChef e apresentador dos programas Pesadelo na Cozinha e Minha Receita, na Band TV. Também foi reconhecido e nomeado Maître Cuisinier de France em 1998 – a mais alta honraria da Gastronomia Francesa, sendo o primeiro chef francês a receber esse título no Brasil e na América do Sul. A relação com Natal começou há 13 anos, quando foi convidado pela família Gosson, para assinar o menu do restaurante La Brasserie de La Mer, no Hotel Majestic, em Ponta Negra,

Tribuna do Norte

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