Ícaro Carvalho
Repórter
Em vigor desde o início do ano, o mercado livre de energia ainda é desconhecido para boa parte dos consumidores elegíveis, mas já desperta interesse de empresários, lojistas e empreendedores que buscam economizar na conta de luz e poder escolher quem será seu fornecedor de energia. Situação discutida há mais de 20 anos pelo setor elétrico nacional, a liberalização do mercado foi conduzida “com muita maturidade pelo segmento” na avaliação da diretora comercial da Neoenergia, Rita Knop, que estará em Natal nesta semana para apresentar as novidades e potencialidades do mercado livre de energia para consumidores potiguares.
Na avaliação de Rita Knop, a liberalização do mercado livre de energia é semelhante ao que ocorreu em meados dos anos 1990 para o setor de telecomunicações, com cada usuário podendo escolher sua operadora telefônica.
“Eu vim do setor de telecomunicações, que abriu da noite para o dia. Você dormia e no outro dia podia escolher sua empresa. A gente não sabia nem para que instalar telefone. Então foi meio caótica essa liberação. O setor de energia vem fazendo isso com uma maturidade importante, com as gigantescas primeiro, corrigindo problemas e aprimorando processos. Agora, estamos migrando para pequenas e médias empresas, então vamos experimentar esse modelo, corrigi-lo, melhorá-lo para poder chegar no cliente residencial mais preparado”, aponta.
Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Rita Knop explica em detalhes o Ambiente de Contratação Livre (ACL) no mercado energético brasileiro, aponta eventuais riscos dessa mudança para o setor e destaca o que a Neoenergia tem feito para atuar neste novo mercado. Confira.
O que é o mercado livre de energia?
Este ano temos uma mudança muito importante no setor de energia, que é a liberalização do mercado. Na prática é como se fosse a privatização do setor de telecomunicações lá em 1998. A partir de agora, com essas mudanças, os clientes já podem ir para o mercado livre, que significa poder escolher quem vai ser a empresa que fornecerá energia para ela. Isso aconteceu desde o dia 1º de janeiro e esses eventos [na próxima quinta-feira, 4, a Neoenergia faz evento, em Natal, para esclarecer consumidores aptos a migrar para o Ambiente de Contratação Livre] é para fazermos isso chegar a um conhecimento geral das empresas, nossa maior dificuldade. Muitas delas já poderiam estar nesse mercado livre, podendo negociar seus contratos, reduzir seus custos de energia em até 35%, mas não sabem dessa modificação na legislação.
Essa discussão já acontece há alguns anos. Como a Neoenergia enxerga essa chegada do mercado livre?
Se olharmos para o mundo, como Estados Unidos e Europa, o cliente residencial já tem essa opção de escolha. O mercado vai caminhar para lá. A visão da Neoenergia é de que temos que chegar lá, mas de maneira segura, com regras mais claras. Porque quando se vai para um Ambiente de Contratação Livre, não vai ter esse nível de proteção que o cliente residencial tem atualmente. As regras precisam ser muito claras. É importante que para que cheguemos nessa abertura de mercado total, que esse processo de maturidade total da liberação tenha ocorrido. Eu vim do setor de telecomunicações, que abriu da noite para o dia. Você dormia e no outro dia podia escolher sua empresa. A gente não sabia nem para que instalar telefone. Então foi meio caótica essa liberação. O setor de energia vem fazendo isso com uma maturidade importante, com as gigantescas primeiro, corrigindo problemas e aprimorando processos. Agora estamos migrando para pequenas e médias empresas, então vamos experimentar esse modelo, corrigi-lo, melhorá-lo para poder chegar no cliente residencial mais preparado.
Quem pode participar do mercado livre?
Imagine você que tem sua empresa, que pode ser uma padaria, um hotel, uma loja, uma indústria de copos, etc, qualquer tipo de empresa que tenha uma fatura mais ou menos de R$ 5 mil por mês já é elegível a participar desse mercado, isto é, escolher seu fornecedor de energia. A redução, a partir do momento que se faz o contrato, ela é imediata. Então estamos dando essa visibilidade para que todos saibam dessa possibilidade, que é o nosso grande interesse. No Rio Grande do Norte são 1.346 empresas que já poderiam estar se beneficiando desse novo mercado de energia.
A partir do momento em que se ingressa no mercado livre, na prática a redução se dá de que forma?
Hoje, quando você tem essa liberdade de escolher o seu fornecedor, existe um incentivo do Governo para as energias renováveis. O cliente vai poder escolher isso, inclusive, como poder ter uma energia que venha de fonte eólica ou solar. Essas energias têm incentivo do Governo, portanto são mais baratas. A partir do momento em que se pode escolher, você se beneficia desse mercado. Além do ganho financeiro, mas a empresa tem outras oportunidades, que é de ter certificados internacionais que são importantes. Por exemplo: se você é fornecedor de uma empresa internacional, algumas delas exigem o certificado de energia limpa. Então quando você compra dessas fontes limpas, você tem direito a esse certificado para garantir que toda a energia que chega na sua empresa é renovável. E estamos falando muito nesses processos de descarbonização nas empresas, então isso fica mais fácil quando se tem fonte de energia limpa. Outro benefício é a possibilidade de se escolher o tempo de contrato. Você pode negociar livremente, depende do que você precisa e o que se quer para sua empresa. O preço da energia é muito volátil, então se num dia o preço está baixo, é melhor fazer um contrato de longo prazo, porque se garante e há previsibilidade para se pagar naquele determinado tempo de contrato.
O que o cliente precisa fazer para ter acesso?
Ele vai procurar a Neoenergia, que vai auxiliá-lo e comunicar a distribuidora que ele quer migrar para o mercado livre. Existe todo um procedimento de migração, de documentação, um período de até seis meses para ele conseguir migrar, pois a distribuidora também precisa fazer o planejamento pois aquele cliente deixa de ser dela. Feito isso, ele é livre e precisará de um representante na Câmara de Comércio de Energia (CCE), que é o órgão que controla a energia do país. A Neoenergia o representa nessa câmara. Quando é um cliente muito grande, ele mesmo se representa. Os pequenos e médios são representados pela empresa que vendeu a energia. É um processo transparente. A Neoenergia tem esse grupo que é a comercializadora. O cliente vai ter um gerente de contas à disposição que vai cuidar dele, auxilando em todos os procedimentos operacionais dessa migração. Esse gerente também vai auxiliá-lo na gestão do dia-a-dia dele, caso se ele precise de mais energia, se tiver energia sobrando, então toda essa gestão é feita por esse grupo. Existem as empresas que geram energia, as que fazem a transmissão, que fazem a distribuição e agora teremos um grupo de empresas que serão as comercializadoras, que são as que cuidam do mercado livre.
Essa possibilidade de redução na tarifa, de até 35%, como pode impactar no dia-a-dia negócios como hospitais, padarias, etc?
No provimento de energia não muda nada para eles. Porque se tiver que fazer qualquer adequação técnica, somos nós quem fazemos. Tecnicamente é transparente. O cliente só vai mudar o órgão relacional dele, então se ele se relaciona com a distribuidora ele passa a conviver com a comercializadora. Isso é separado por uma questão de legislação: tem clientes regulados e clientes que têm liberdade de negociação. No futuro todos vão ter essa liberdade, só que o setor de energia está indo por grupos de clientes. Lá em 1998 começou-se pelas grandes indústrias do País, depois as médias indústrias, e agora está chegando muito próximo da pessoa residencial. Inclusive, se você é um cliente residencial que está ligado na média ou alta tensão e tem uma conta de R$ 5 mil, pode se beneficiar. Não são apenas empresas. É transparente para o cliente.
Na prática, a Cosern continua como distribuidora, mas a parte comercial fica com empresas… Há riscos nessa operação?
O seu relacionamento com a distribuidora sempre vai existir, só não vai negociar mais nada com ela. Então quando tiver problemas não ligará mais para ela, esse relacionamento passa a ser com as comercializadoras. Vão bater na porta dos clientes várias empresas, e a Neoenergia também terá essa divisão para comercialização. Qual o grande risco dessa operação? O risco que existe é você negociar com uma empresa que não tenha robustez financeira, que não tenha condições de garantir o contrato, ela pode quebrar e desaparecer do mercado e te deixar na mão. E você não pode voltar, não é automaticamente, precisaria procurar outra comercializadora. Então é importante que o cliente, quando for procurar essa comercializadora, olhar a robustez financeira dessa empresa, porque o preço de energia é definido por dia, é bem volátil.
Como a Neoenergia está se preparando para atender essa demanda do mercado livre?
Por isso ampliamos essa área comercial da Neoenergia, da qual sou líder nesse momento. Nessa área temos todos os canais de venda, com visitas presenciais. Temos vendedores também por telefone. Se o cliente quiser comprar de maneira eletrônica, também é possível. A Neoenergia vai ter a possibilidade, com a criação dessa área, de atender todos os clientes. Isso já está preparado, já existe, está formatada e já em funcionamento.
Quais os desafios e obstáculos para essa clientela surgem com esse movimento?
O grande desafio é que esse cliente, a partir do momento em que experimente o mercado competitivo, a possibilidade dele negociar, ele se torne mais exigente, pois ele terá opções. Essa experiência do cliente, torná-lo o centro desta operação, é a grande mudança que vamos ter no sentido de cuidar do cliente de maneira integral. Essa mudança do cumprimento de obrigações regulatórias para um cumprimento de um contrato que o cliente estabelece e determina o que ele quer, o atendimento passa a ser individualizado. O desafio das comercializadoras será estruturar áreas para recepcionar esse novo cliente, num novo nível de exigência. Até equipes de venda e relacionamento tem um nível de especialização. Eles serão assessores energéticos.
O mercado livre também é aberto para quem já possui sistemas próprios fotovoltaicos?
Hoje quem já tem o sistema fotovoltaica se tem 15, 20% de desconto, aqui pode-se chegar a 35% e em alguns casos até mais. A diferença é que lá o cliente precisa investir, precisa comprar as placas, precisar dar manutenção. Quando dá problema, é ele quem cuida disso. No mercado livre de energia, ele não precisa investir nada e não precisa se preocupar com operação e manutenção. A comparação, hoje, de fazer a Geração Distribuída na empresa e ter a energia comprada no mercado livre, é mais vantajoso, primeiro porque não precisará investir R$ 30, 50 mil, e não precisará se preocupar com manutenção.
quem
Rita Knop tem mais de 27 anos de carreira com experiência nos setores energia (Neoenergia), telecomunicações (Vivo, SKY e Algar) e grandes consultorias (KPMG e PWC), sempre liderando área de vendas, marketing, produtos e operações para mercados B2B e B2C. É graduada em engenharia elétrica com mestrado em estratégia e especialização em inovação e marketing. Rita Knop também é co-autora de 3 livros, participa de organizações internacionais com WCD, é presidente da Associação Grupo Mulheres Diamante que trabalha em prol da educação de meninas. Já ganhou prêmio internacionais de liderança e inovação, e como hobby gosta de viagens exóticas e vinhos.
Tribuna do Norte

