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Frutos da irrigação: os 4Ms da fruticultura do RN respondem por quase 15% da produção de frutas do País

Margareth Grilo 
Editora de Economia 

O clima propício, a terra fértil e boas reservas de água, que permitiram a irrigação de áreas para o plantio, alavancaram culturas que se tornaram expoentes do Rio Grande do Norte, com mais força na última década. Os chamados ‘4Ms’ da fruticultura potiguar – melão, melancia, manga e mamão – são responsáveis por 14,72% de toda a produção dessas frutas no Brasil. De 5,266 milhões de toneladas colhidas no País, em 2022, cerca de 775,4 mil toneladas foram extraídas do solo potiguar. Os dados são os mais recentes da Produção Agrícola Municipal, pesquisa elaborada pelo IBGE. Na época, a área plantada para as quatro frutas alcançou 31.742 hectares. E mais: os ‘4Ms’ respondem, anualmente, por quase metade das exportações de frutas brasileiras para o mercado externo. 

Quem vive o dia a dia da fruticultura potiguar deposita nesses indicadores esperança de mais crescimento. O agricultor Aldair José Vital da Silva chegou ao Distrito de Irrigação do Baixo Açu (Diba) em julho de 1999. Lá se fixou em um lote. Hoje, 25 anos depois dessa empreitada, tem 15 lotes e o desejo de expandir a área de plantio e crescer a produção. “Há perspectiva de crescimento, a gente vê nitidamente que tem mercado para vender nosso produto. Eu passei aqui, aproximadamente, 16 anos com 24 hectares de terra e, nos últimos sete anos, aumentei mais de 48 hectares. E meu projeto é ir a 100 hectares”, diz animado o produtor. 

Integrante do Conselho Administrativo do Diba, José Aldair relembra que há 25 anos a região do Vale do Açu tinha empresa que trabalhava com apenas 40 hectares de manga. Atualmente, essa mesma empresa tem cerca de 600 hectares. “Outras, tinham entre 25 e 60 hectares, e de lá para cá, elas têm aumentado muito a área plantada. Colegas nossos têm áreas de 70 hectares, que antes não existiam; e tem novos projetos com até 50 hectares se formando a cada dia”, relata. Com aumento de produção, as frutas, acredita o agricultor, impulsionaram as exportações.  

Em 72 hectares no Diba, José Aldair cultiva manga, com três variedades – tommy, palmer e keitt – consorciada a outras culturas, como o mamão e a banana.  Da produção de manga, quase 70% vão para exportação, principalmente, para os Estados Unidos e países da Europa. “Mas também tem o mamão, que boa parte vai para Europa e mercado interno”, completa o agricultor, que começou o plantio dessa espécie com 13 anos, na roça do pai. “Estou com 51 anos, já perto de fazer 40 anos nesse ramo”, diz ele. 

José Aldair relembra as dificuldades iniciais da produção. “Antigamente, era tudo mais difícil. Em 1 hectare de manga a gente plantava 100 plantas, hoje com a evolução de tecnologia, dos sistemas de irrigação, a gente planta mil. Naquela época, a gente colhia uma média 12 a 15 toneladas por hectare, hoje, colhemos 65 toneladas por hectare. É um aumento enorme de produtividade”, compara.  

O presidente do Diba, Michel Ângelo de Macedo de Lima Cosme, afirma que desde o ano passado percebe boas condições de melhora da produção e da produtividade. “Foi um bom ano de inverno. Aqui na região choveu mais de 1.200 milímetros. O nosso reservatório está com 85% da sua capacidade. A gente acredita que esse ano vai ser muito bom para as frutas em geral”, comenta.  

Segundo ele, no Diba há plantio de melão e melancia, mas ainda tímido. O mais forte, entre os 4Ms, é o cultivo da mamão, em área de  120 hectares e da manga, em cerca de 100 hectares.  Mas tem a banana que se expande por uma área de mil hectares, o coco, em 170  hectares e o limão, em 150 hectares.

“Esse ano eu estou crescendo em 30% minha área, em relação à safra anterior. O mamão não para. A partir do ponto que você planta quando ele completa seis, sete meses ele está produzindo, toda semana tem produção, até um ano e seis meses, dois anos”, diz ele. 

Melão e manga terão aumento exponencial

O estudo Projeções do Agronegócio para o Brasil 2022/23 a 2032/33 aponta um crescimento de produção exponencial para o melão e a manga. Em dez anos, de acordo com as estimativas, a produção de melão no País deve aumentar 28,7% e da manga, 22,9%.  De acordo com o documento, no País, a cultura do melão que teria o maior crescimento, passaria de uma produção estimada em 644 mil toneladas na safra 2022/2023 para 829 mil toneladas na safra 2032/2023; já a manga, expandiria sua produção de 1,578 milhão de toneladas para 1,939 milhão de toneladas no mesmo intervalo. 

Já o mamão, que registrou uma queda de área e de produção significativa nos últimos anos, diante do impacto do clima, das viroses e da crise do covid-19, deve ter uma leve recuperação nos próximos 10 anos. De acordo com a projeção, o mamão seria a fruta com menor expansão, cerca de 2,2%, passando de 1,262 milhão de toneladas para 1,290 milhão de toneladas. 

O documento, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), alerta que o crescimento do melão em área faz sentido se o Brasil conseguir abrir novos destinos de exportação e destaca que o fato de “a produção, sobretudo no Rio Grande do Norte e Ceará, ser bem tecnológica pode encolher o espaço para expansão”. 

No caso da manga, diz o estudo, “os aumentos de área recentes (já ocorridos) podem permitir aumento da produção. Quanto à área, acredita-se em interrupção do movimento de crescimento, e em continuidade do crescimento das exportações brasileiras de manga”. 

“Nordeste tem propensão à fruticultura”, diz Jeová Lins

A região Nordeste tem uma propensão em alguns polos à fruticultura. “Ao longo dos últimos 30 anos, os produtores despertaram para uma exploração organizada de culturas mais nobres, a partir da irrigação, e os estados do Rio Grande do Norte e Pernambuco sobressaíram”, afirma o superintendente do Banco do Nordeste, no Rio Grande do Norte, Jeová Lins da Silva. 

Além do Vale do Açu; da região da Maisa, em Mossoró; da chapada do Apodi, no Rio Grande do Norte; inúmeras áreas em Petrolina, Pernambuco, e numa menor intensidade, a região do Oeste baiano, e regiões no norte de Minas têm atividade, principalmente da exploração do melão, para exportação, mas tem também do mamão e da manga, exemplifica o superintendente do BNB, instituição que tem um papel importante no financiamento dessas atividades.

Ele acredita que o Rio Grande do Norte tem potencial de expansão. “Nós temos uma barragem que está nova ainda, que é a barragem de Santa Cruz do Apodi. Nós temos uma vocação da Chapada do Apodi para se explorar a fruticultura, fala-se em uva, e acredito que vá expandir o melão e, havendo manancial, permite que se produza bem. Então, não vejo limitação da exploração”, afirma Jeová Lins.

Jeová Lins ressalta que a situação econômica do país pode favorecer. “Está com três anos que saímos de uma pandemia, e agora que o empresariado está retomando essa produção plena, então acredito que tem espaço para ampliação da fruticultura e outros cultivos”, ressalta.

O secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha afirma que não resta dúvida que essas principais frutas “têm sido um diferencial muito grande” para o Rio Grande do Norte. Segundo ele, já são mais de 35 empresas que atuam nesse segmento dos 4Ms. 

“Isso é muito importante, primeiro, porque a produção está diversificada. Apesar de a gente ter uma empresa muito grande, que é a Agrícola Famosa, que tem cerca de 30%, 40% do mercado, a depender do tipo de fruta, até mais, mas esse segmento dos 4Ms, está na mão de várias empresas, e se isso estivesse concentrado, o risco de uma empresa passar por dificuldade e colapsar as exportações seria bastante preocupante”, afirma.

Segundo ele, no caso do mamão, o Estado tem focado muito na produção do formosa, já o Espírito Santo está muito voltado para o mamão Havaí. “Mas tem crescido de forma significativa a produção desse tipo de mamão, principalmente no Vale do Açu, mas também na região do Oeste, Alto Oeste. E manga também tem experimentado um percentual muito bacana de expansão”, diz ele.

Tribuna do Norte

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