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CPAC terá Milei, Bolsonaro e Tarcísio e quer dar visibilidade a líderes conservadores no Ocidente

Na primeira vez que participou da versão brasileira da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC Brasil), em 2021, na cidade de Campinas (SP), Javier Milei era um excêntrico deputado libertário na Argentina. Três anos depois, ele retorna à cúpula organizada pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) como presidente do país vizinho e principal nome do evento, já que seu discurso pode aumentar a temperatura e causar incidentes diplomáticos com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A trajetória do argentino é um exemplo do principal objetivo da conferência: colocar sob o holofote potenciais lideranças de direita e extrema-direita de países da América do Sul e formar uma rede de candidatos que se apoiam e retroalimentam politicamente no continente. A estratégia também envolve políticos dos Estados Unidos e de países europeus onde extremistas de direita ascenderam ao poder nos últimos anos, como Polônia, Hungria e Holanda.

A aproximação da família Bolsonaro com Milei no passado rende frutos políticos agora: o argentino se encontrará com Jair Bolsonaro (PL), mas ignorará Lula durante a visita ao Brasil. A previsão é que o chefe do Executivo do país vizinho chegue a Balneário Camboriú (SC) na noite de sábado, 6, jante com o ex-presidente e os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Jorginho Mello (PL), e palestre na conferência ao longo do domingo, 7, provavelmente no encerramento do evento.

O encontro com os bolsonaristas ganhou peso por causa dos atritos entre Lula e Milei ao longo da semana. O petista disse, em entrevista, que o argentino deveria pedir desculpas por ter falado “muitas bobagens” sobre ele e o Brasil durante a eleição de 2022. “As coisas que eu disse, ainda por cima, são corretas. Qual o problema de chamá-lo de corrupto? E por acaso não foi preso por ser corrupto? Eu o chamei de comunista. E por acaso não é comunista?”, respondeu o presidente da Argentina.

Milei não pediu, e também não está previsto, um encontro com Lula, praxe nas relações diplomáticas que não foi cumprida no que foi interpretado como provocação. O governo brasileiro monitora o tom a ser adotado pelo argentino e não descarta retaliações via diplomacia, mas o Itamaraty tem evitado o confronto. A tensão aumentou depois que o governante argentino cancelou a participação na cúpula do Mercosul, na segunda-feira, 8, em Assunção, no Paraguai.

Eduardo Bolsonaro disse ao Estadão que considera natural a presença de Milei na CPAC Brasil por causa da afinidade ideológica e que o estranho seria se ele fosse a uma reunião do Foro de São Paulo, entidade que reúne partidos políticos de esquerda.

“Ele não é nenhum fã do Lula. Já deu para perceber isso. Ele só vai encontrar o Lula quando realmente não tiver outra possibilidade, quando for um encontro de um grupo de países em que não houver outra alternativa”, afirma o deputado. Os presidentes se encontraram no mês passado durante a cúpula do G-7 na Itália. Na ocasião, trocaram apenas cumprimentos protocolares.

Eduardo também considera que o governo Lula interferiu nas eleições argentinas ao atuar para que o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF) liberasse empréstimo de US$ 1 bilhão para a Argentina, favorecendo o então ministro da Economia argentino e adversário de Milei, Sergio Massa. A história foi revelada pelo Estadão.

“Ele é maior de idade, é presidente de um país e tem que ser respeitado. Se o Lula quiser falar em pedir desculpa, pode começar pedindo desculpa para o Milei porque ele, sim, fez uma intervenção eleitoral”, diz o filho de Bolsonaro.

Também participarão da CPAC Brasil o chileno José Antonio Kast, político de extrema-direita que deve tentar pela terceira vez ser presidente de seu país após fracassar em 2017 e 2021, e o ministro da Justiça de El Salvador, Gustavo Vilatoro, um dos responsáveis por implementar a política de prisões em massa adotada pelo governo de Nayib Bukele.

Outras presenças confirmadas são a deputada portuguesa Rita Matias, do Chega, descrita por Eduardo como “uma mistura de Nikolas Ferreira e Ana Campagnolo”, o eurodeputado holandês Rob Ross, que convidou os bolsonaristas a falarem sobre liberdade de expressão e censura no Parlamento europeu, e o mexicano Eduardo Verástegui, ator e produtor do polêmico filme Som da Liberdade, que caiu nas graças de conservadores e religiosos ao redor do mundo. Parlamentares da Hungria e da Polônia também são esperados.

Apesar da proximidade das eleições municipais, na qual seu irmão, Jair Renan, será candidato a vereador em Balneário Camboriú, o filho de Bolsonaro afirma que o CPAC Brasil não tem cunho eleitoral, mas sim “político-filosófico”, ao promover a formação conservadora de seu público.

Crítico da atuação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições de 2022, Eduardo Bolsonaro se anima ao falar sobre a possibilidade de Donald Trump retornar à presidência dos EUA e a perspectiva do partido de direita radical de Marine Le Pen eleger a maioria do Parlamento nas eleições legislativas da França.

“O prazo de validade dessa estratégia atual da esquerda, de tentar censurar os opositores, vai até o dia 5 de novembro (data da eleição nos EUA). Quando o Trump ganhar, eles vão ter que reformular a estratégia”, conclui.

“Isso prova que, na verdade, nós não somos pessoas isoladas, que estão tendo um devaneio. O que a gente está falando é o que a maioria do Ocidente está pensando”, afirma Eduardo Bolsonaro. Segundo ele, o evento terá críticas à economia verde, ao intervencionismo econômico e se pautará no combate ao feminismo e ao aborto.

Também haverá debates sobre segurança pública com um viés de “direitos humanos focados na vítima e não no criminoso” — o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PL), é um dos palestrantes. A gestão dele tem sido criticada por organizações sociais, que apontam excessos praticados pela polícia em operações na Baixada Santista.

Estadão Conteúdo

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